Conversa com o educativo
em 12/02/2010 por Luiza ProençaNo final de 2009 a Ação Cultural e Educativa do Centro Cultural São Paulo realizou uma primeira publicação, denominada “Desenrolando o Centro Cultural São Paulo”, dedicada ao público infanto-juvenil que vem visitar o CCSP pela primeira vez. A Ação conta com outros diversos recursos gratuitos para aproximar o público das múltiplas linguagens que fazem parte da programação da instituição.
A conversa a seguir foi feita com a coordenadora do grupo de mediação do CCSP Patrícia Marchesoni pouco antes da criação do GRiD, em julho de 2009, com o interesse em saber como educativos de diversas instituições lidavam com arte contemporânea. Ainda sem conhecer ou ter acompanhado uma visita da Ação Educativa alguma vez, a conversa se desenrolou a partir de uma espécie de questionário semi-estruturado. Com o início das atividades do GRiD, reconhecemos a importância do papel da Ação Educativa do CCSP ao transitar entre as divisões, setores, ou curadorias, do Centro Cultural, e por isso resolvemos, após uma reedição, publicar a conversa aqui.
Luiza Proença: Desde quando existe o educativo no Centro Cultural São Paulo?
Patrícia Marchesoni: Houve uma mudança bem importante no educativo do Centro Cultural. A divisão como ela é agora, a DACE – Divisão de Ação Cultural Educativa - foi criada em 2007, porque até então havia um núcleo que era um braço da curadoria das artes plásticas, o NAE (Núcleo de Ação Educativa) e também um outro núcleo, o Atelier, responsável pelos cursos e oficinas.
Ou seja, em 2007 houve a junção desses dois núcleos e foi criada a Divisão de Ação Cultural Educativa. Um dos fatores mais importantes disso é que foi dado um maior status a essa divisão, já que antes estes dois núcleos estavam submetidos à outra curadoria. Ao passar a ser uma divisão a partir de 2007, ela fica no mesmo patamar das outras curadorias, de artes plásticas, de música, etc, ganha um status de curadoria. Assim, a missão ficou diferente porque passou a ter um caráter mais propositivo, passou a ter mais liberdade de ação e proposição.
Dentro da DACE, houve uma divisão de tarefas e de responsabilidades. Hoje existem dois grandes grupos dentro dessa divisão: o grupo de cursos e oficinas, que a coordenação é da Débora [Bolsoni] e o grupo de mediação, o qual eu sou coordenadora.
Roberto Winter: O NAE era a única coisa que existiu antes?
Patrícia: Isso.
Roberto: E ele surgiu em um determinado momento?
Patrícia: Ele surgiu a partir da curadoria de artes plásticas, principalmente para fazer as visitas às exposições.
Roberto: E para outras áreas como teatro e dança não tinha nada equivalente que depois foi incorporado?
Patrícia: Não…
Luiza: Qual é o papel que o educativo tenta cumprir hoje dentro do CCSP?
Patrícia: Tentamos cumprir esse papel propositivo. Acho que ainda é uma coisa mais ou menos nova aqui dentro, e acho até que muita gente daqui ainda está se acostumando com esse novo papel dessa Divisão. Então trabalhamos constantemente também para as pessoas entenderem o que a gente faz aqui. Por exemplo, uma coisa que a gente sempre tem que bater na mesma tecla é que existe ainda aqui dentro mesmo uma idéia de que a gente faz visita monitorada. É um trabalho a longo prazo, de conversar e explicar para pessoas de diversas divisões que a gente não faz visita monitorada, que a gente faz mediação, e quais são as diferenças entre um e outro. Mas é uma coisa que nós estamos fazendo já há algum tempo e ainda tem muita gente que não entende o que é mediação. Até usam essa nomenclatura, “monitoria”, para falar dos serviços que a gente oferece.

Folder do Acervo do Centro Cultural São Paulo exposto na ocasião do aniversário de 25 anos do CCSP. Hoje a Ação Educativa defende o uso de "visitas mediadas" em lugar de "monitoradas".
Luiza: E como vocês entendem a mediação?
Patrícia: Não queremos o uso da palavra monitoria, de algo guiado, de uma pessoa ser detentora do conhecimento, das informações, e passar informação enquanto o público recebe essa informação passivamente. O trabalho que fazemos na mediação aqui é muito pautado na questão da experiência, na construção de conhecimento e no coletivo. Tentamos fazer atividades para criar vínculos com instituições, atividades práticas, ou em forma de discussão, mas algo construído, e não uma coisa dada por um e recebida por outro.
E o trabalho de mediação aqui também não é só em relação às exposições, porque como estamos em um Centro Cultural, tentamos abarcar toda essa multiplicidade de linguagens que temos. Trabalhamos com oito roteiros [hoje já são 10]. Um deles é então “Aproximação com arte contemporânea”, que é o que trabalhamos nas exposições, principalmente nas mostras. Mas temos roteiros de aproximação com a linguagem do teatro, com a linguagem de histórias em quadrinhos, por causa da Gibiteca; temos um roteiro chamado “Laboratório sensorial”, pensado a partir da Biblioteca Braille, um roteiro no qual aproximamos esse equipamento cultural através de outros sentidos que não a visão terminando na Biblioteca Braille. Tudo isso tendo como objetivo a questão da experiência. Entre outros, existe um roteiro sobre arquitetura, tem um roteiro que é “Descobrindo o Centro Cultural São Paulo”, onde damos um panorama sobre tudo o que o CCSP oferece.
E também tem uma característica muito importante que trabalhamos durante a mediação que são as especificidades desse lugar, principalmente por ser um lugar público. É uma característica importante que incorporamos nas visitas, discutindo com os grupos o que é o espaço público, cidadania, coletividade, etc. Então procuramos sempre pensar nesse lugar, a mediação a partir desse lugar específico que é o CCSP, que é um lugar público, da Prefeitura de São Paulo.
Luiza: E quem usa esses roteiros? Público escolar e/ou espontâneo?
Patrícia: Atendemos qualquer tipo de público, jovens, adolescentes, adultos, e oferecemos também visitas espontâneas, só que não tem muita demanda, então oferecemos somente duas vezes por mês. Estamos tentando fazer algumas ações, divulgando mais, para ver se aumenta essa demanda de público espontâneo.
Nossa maior demanda é de escolas, escolas públicas, e principalmente da prefeitura (municipais). Acredito que isso tem a ver com a nossa vocação também por ser um centro cultural da prefeitura. Entre crianças e adolescentes, vêm principalmente crianças.
Luiza: Essas escolas pedem pelos roteiros? Podem escolher?
Patrícia: Podem. Oferecemos os roteiros e as escolas tem a liberdade de escolher o que quiserem
Luiza: E não existe educador disposto no espaço expositivo, para receber o público espontâneo?
Patrícia: Não. Mas depende da exposição. Algumas exposições que vem de fora que eles colocam no orçamento para contratar pessoas para ficarem no espaço expositivo, mas geralmente não.
Tem uma coisa importante que eu estava esquecendo que é a “Mesa Diz-tudo”, que supre parte dessa necessidade. É uma mesa educativa que colocamos no espaço expositivo em determinados horários e que tem livros, portfólios e outros materiais relacionados às exposições em cartaz e um mediador da nossa equipe fica à disposição por duas horas. Ou seja, é uma mesa para quem quiser se aprofundar sobre um assunto ou quiser conversar ou consultar os livros.

O "monitor" Maurício Faria Ramos durante visita ao Centro Cultural São Paulo em 1997. Foto Sosô Parma.
Roberto: Existe algum roteiro mais pedido?
Patrícia: Um dos roteiros mais pedidos é o da Gibiteca.
Luiza: E como funciona esse roteiro?
Patrícia: Em todos os roteiros, o que a propomos é uma aproximação com a linguagem. Então o roteiro acontece na própria Gibiteca onde os visitantes têm contato com os gibis, aí vamos construindo o que é essa linguagem, quais são as peculiaridades, e sempre tem uma atividade prática de fazer uma construção de uma história em quadrinhos e para isso temos várias opções. Outra coisa importante também é o coletivo. Nas atividades sempre privilegiamos o coletivo, até mesmo por estarmos no espaço público, de uso coletivo. Por exemplo, nessa atividade da Gibiteca propomos uma construção coletiva de uma tirinha de quadrinhos, então se formam alguns grupos, um grupo faz o cenário, um outro o personagem, o outro a história, e depois eles trocam.
Roberto: Como foi a elaboração desses roteiros? Vocês pensaram nele e vocês vão aplicando e adaptando?
Patrícia: Isso. Fazemos uma coisa sempre experimental. Pensamos no que queremos, aí colocamos em prática, e vemos o que deu certo o que não deu. E a gente sempre muda.
Roberto: Você disse que são oito roteiros. Esse número cresceu?
Patrícia: Sim, cresceu. E a gente quer aumentar, por exemplo a gente quer fazer um roteiro de cinema (“Introdução à Linguagem Cinematográfica” e mais um, “Música de Movimento”). A ideia é aumentar para abarcar todas as linguagens que a gente tem aqui.
Roberto: E no caso de uma visita espontânea, os roteiros são oferecidos?
Patrícia: Checamos com o grupo. Tentamos privilegiar as exposições e geralmente damos duas opções: “Descobrindo o Centro Cultural” ou “Aproximação com arte contemporânea”. Ou também se o grupo quiser alguma outra coisa, fazemos, pois outra coisa que consideramos importante é a questão da autonomia e a liberdade de escolha.
Luiza: É interessante como o educativo circula por diversas linguagens por meio dos roteiros. Existe algum roteiro que faz pontes entre linguagens em uma visita? O roteiro “Descobrindo o Centro Cultural” cumpre esse papel?
Patrícia: Sim, principalmente esse, mas também os roteiros: Arquitetura, Laboratório Sensorial, Viagem Espacial, Música e Movimento.

Durante uma visita por meio do roteiro "Viagem espacial", uma versão mais lúdica do roteiro "Descobrindo o Centro Cultural São Paulo". Foto: Patrícia Marchesoni e Carlos Rennó
Luiza: E os mediadores que conduzem as visitas são estudantes somente das áreas de artes?
Patrícia: São da área de humanas. É sempre interessante ter de artes, é claro, pelo repertório, mas temos estudantes de história, filosofia, teatro, já teve de arquitetura, talvez em breve teremos um de letras …
Roberto: E como é isso para vocês de eles serem estagiários? Tem vantagens e desvantagens?
Patrícia: A desvantagem é que eles não podem ficar mais de dois anos e fazer um trabalho a longo prazo. Agora a vantagem, que eu particularmente acho interessante, é ter gente que não tem experiência. Porque como fazemos um trabalho experimental e estamos tentando fazer algo novo, eles vêm sem preconceitos de experimentar ou vícios. Porque às vezes uma pessoa que já tem experiência tende a fazer uma coisa do jeito que já fazia antes. Eu acho que o lado positivo disso é a abertura para coisas novas. O que eles têm em comum é que são pessoas interessadas em mediação, que pesquisam, o que é uma grande vantagem.
Luiza: Como é a formação dos estagiários?
Patrícia: A maioria costuma ficar os dois anos de estágio. Todos os que entram, têm um período de um mês para treinamento para conhecer o espaço e se familiarizar, porque tem muito conteúdo para ser estudado principalmente sobre o CCSP, sobre a história do prédio, o projeto, etc. Usamos textos que são a base do nosso conceito e eles ficam durante esse mês observando as visitas dos outros mediadores.
Luiza: Quais são esses textos?
Patrícia: Tem vários , mas os principais são: “Notas sobre a experiência e o saber da experiência” de Jorge Larrosa Bondia, “Between Education and Participation” de Pierangelo Maset e “Pedagogia da Autonomia” de Paulo Freire.
Mediação e arte contemporânea
Luiza: Como funciona o roteiro “Aproximação com arte contemporânea”?
Patrícia: Acontecem nas exposições, e existem alguns recursos que usamos quase, mas obviamente muda muito de acordo com a mostra. A cada exposição pensamos em outras estratégias partindo do conteúdo. Algumas destas atividades fazemos sempre, como por exemplo, as “palavras chaves”, que são alguns chaveirinhos que temos aqui com várias palavras. É uma maneira de aproximar o visitante às obras, porque existe uma grande dificuldade em falar sobre arte, em discutir, que vem de uma idéia de que não são capazes de entender. Então usamos esse tipo de recurso para quebrar o gelo e criar uma maneira de aproximação com o público, partir daí gerar uma discussão e desenvolver a autonomia no visitante, mostrar que ele é capaz de fazer essa aproximação mesmo sem repertório prévio.
Um outro recurso usamos principalmente com criança pequena, que é invenção da Ana Teixeira, é uma máquina fotográfica mental feita com disquetes velhos de computador. Isso é uma coisa super simples, tem que o público tira foto de alguma coisa com o disquete e a foto é mental, vai para mente e depois dá para discutir também do que eles tiraram foto.
Roberto: E como é a relação com a curadoria? Vocês participam, por exemplo, da seleção anual de jovens artistas para o Programa de Exposições?
Patrícia: Não. Não participamos da seleção. O Guilherme [Teixeira, coordenador da Ação Cultural e Educativa] participa de muitas coisas que acontecem com a equipe de curadoria. Por exemplo, existem os artistas que são convidados todo o anos, e o Guilherme tem a liberdade de sugerir nomes. Então tem essa participação, mas não na seleção. Em geral somos bem envolvidos com curadoria de artes plásticas.
Luiza: Você acha que seria interessante para o educativo participar disso?
Roberto: E participar pode significar também acompanhar, não necessariamente fazer a seleção…
Patrícia: Seria super interessante, saber os critérios de seleção. Uma outra coisa também, que foi recentemente aprovada pela curadoria de artes plásticas, é que o educativo tenha um espaço nos folders da mostra. Então teremos um espaço com perguntas provocativas, com certeza no ano que vem já teremos isso.//




