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Teatralidades Contemporâneas

Tão difícil quanto se aventurar a escrever sobre as tão diversas manifestações teatrais contemporâneas, é encontrar alguém diposto a fazê-lo. Partindo das idéias de Hans Thies Lehmann, e o seu  Teatro pós-dramático, e da pensadora Josette Férral, Silvia Fernandes lança seu livro Teatralidades Contemporâneas, pela Editora Perspectiva.

A (importante) diferença do recém lançado livro é que a teórica se debruça em seus ensaios sobre companhias brasileiras de teatro, entre elas: o Teatro da Vertigem, a Cia Sútil e a Cia dos Atores.

Capa do livro da Editora Perspectiva

Teatralidades Contemporâneas reúne textos de uma representativa expressão crítica não só dos estudos acadêmicos no domínio da arte dramática, como das tendências mais marcantes das concepções e das práticas em cena no teatro brasileiro e internacional das últimas três décadas. A contemporaneidade é, pois, o âmbito e o dado fundamental na visão com que Sílvia Fernandes descortina o processo cênico em curso, cuja fermentação vem revolucionando o repertório de espetáculos oferecido ao público deste século XXI, esteja ele em cartaz nos sedutores luminosos das grandes casas teatrais ou nos obscuros tablados dos grupos experimentais de vanguarda. A esta luz – em que as propostas de teóricos como Féral, Pavis, Ubersfeld e Lehmann pautam o seu ideário –, as sensíveis e bem fundamentadas análises da ensaísta proporcionam ao leitor as chaves dos códigos explícitos, mas também das ocultas redes de relações de intersignificância tecidas, textual e cenicamente, nas obras teatrais, aspirem ou não o status de arte. É o que aflora com evidência estética em encenadores que, no Brasil ou no exterior, puseram em jogo no seu trabalho os operadores conceituais e as possibilidades de leitura artística por eles ensejadas nos palcos da atualidade, como José Celso Martinez Correa, Gerald Thomas, Felipe Hirsh e a Sutil Companhia de Teatro, Antonio Araújo e o Teatro da Vertigem, Enrique Diaz e a Companhia dos Atores. As esclarecedoras e, a seu modo, instigantes interpretações que a nova crítica nos oferece nestes textos de Sílvia Fernandes, traduzem uma captação e avaliação no plano do intelecto e da sensibilidade que é, não só de uma nova geração em nosso movimento teatral, como de uma revisão do modo de ver e de fazer teatro em suas diferentes latitudes na modernidade.

[J. Guinsburg]

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Dança Expandida!

Semana da Dança e a Dança Expandida privilegia diálogos (em geral, com outras áreas, outros artistas, outros de outros). Inaugura-se este evento quarta feira, somente para convidados, com a performance de Julia Rocha e seus 13 bailarinos. Quem quiser, tem que pegar convite lá na curadoria do CCSP, são poucos, uns 150, e foram todos feitos à mão.

Tentativa de Salvar o Mundo. 28.04. performance de Júlia Rocha. foto: Ines Correa

Quem não puder ir na quarta feira, saiba que quinta feira 19h Júlia Rocha apresenta seu solo, só que sem seus 13 bailarinos.

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projetos projetos

Para o ano de 2010, o GRiD pretende realizar uma série contribuições para a programação do centro cultural. Buscando um vínculo mais efetivo e afetivo com a Instituição. Pensando nisso, surgiu a ideia de se publicar textos em formatos curtos, para que sejam inseridos naquele pequeno ‘folheto mensal de divulgação de atividades do CCSP’. Desta maneira, o GRiD estará levando ao formato impresso uma linguagem próxima das utilizadas neste blog. Um tipo de inserção poética e textual, relacionando-se cada vez mais com a programação.

Simulação de um post numa impressão preto e branco no caderno de programações do CCSP. Fotomontagem de Bruno Freire e Roberto Winter.

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Dogma

Quando se diz que certas palavras se tornaram dogmas, que esquecemos seus significados, que tais terminologias se tornaram apenas ‘letrinhas uma ao lado da outra’. De alguma forma, é curioso que esta palavra “dogma” também tenha sido título de um movimento cinematográfico. Confuso de qual dogma estavamos falando, cataloguei brevemente um outro dogma, que reformula um modo de fazer do cinema.

“Paris, Maço de 1995. O mundo dos filmes estava reunido no simpósio Le cinéma vers son deuxième siècle para celebrar o primeiro século do cinema e debater seu destino incerto. Criado para discutir-se as possibilidades futuras para o cinema, o diretor dinamarques Lars von Trier, já bastante conhecido por criar uma série de desafios (e às vezes controversas) na forma de filmes, propôs um ‘guia prático’. Ele apresentou um manifesto, acompanhado de uma série de regras no intuito de libertar os artistas das garras dos orçamentos monstruosos e dos excessivos efeitos visuais, um tipo de regressão terapeútica que ele -- e o seu co-criador Thomas Vinterberg -- esperavam mudar a cara do cinema.” (via)

Manifesto Dogma 95 :

    1. As filmagens devem ser feitas em locais externos. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
    2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
    3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos -- ou a imobilidade -- devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
    4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
    5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
    6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).
    7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme se desenvolve em tempo real).
    8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
    9. O filme deve ser em 35 mm, padrão.
    10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos. (via Wikipedia)

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O que seria interdisciplinar nas artes?

imagem do espetáculo Zona de Risco

Se tornou freqüente a busca por um desenvolvimento de atividades com um intuito interdisciplinar em instituições culturais, como é o caso do Centro Cultural São Paulo com o projeto “experimental” Zona de Risco[1], que aconteceu durante o segundo semestre de 2009. Tais atividades surgem a partir de uma configuração interna da instituição, que gera uma demanda de produção artística. O que muitas vezes acontece é que o “interdisciplinar” em tais atividades se refere ao encontro de disciplinas da própria arte, ou seja, atividades que envolvem teatro, artes visuais, música, dança, cinema, arquitetura, etc. O que isso pode resultar? O que seria interdisciplinar nas artes?

Larry Shiner nos explica que “nem Platão nem Aristóteles – nem a sociedade grega em geral – tratou pintura, escultura, arquitetura, poesia, e música como pertencendo a uma categoria isolada distinta[2].” O autor defende que foi no século XVIII que ocorreu uma grande divisão das artes que conhecemos hoje,  gerando a nova categoria de “belas artes” (poesia, pintura, escultura, arquitetura, música), por oposição aos ofícios e artes populares (calçado, bordados, histórias, canções populares, etc.)”[3], e também às ciências e humanidades. Com essa divisão houve também a substituição de todo um sistema de conceitos, práticas e instituições para um outro, e aí surgiram os museus e a sala de concerto – espaços especiais para a apreensão de algo também desenvolvido nesse novo sistema: a estética.

Sabe-se que ao menos desde 1960 formas de resistência àquela divisão tornaram-se freqüentes, e os limites entre as práticas artísticas tornaram-se imprecisos. Porém, como explica Brian Holmes, “nas formas artísticas resultantes, sempre se encontrarão sobras do velho tropismo modernista, por meio do qual a arte, antes de tudo, designa a si mesma (…)” [4].  Para Holmes, “a palavra tropismo transporta o desejo ou necessidade de virar-se rumo a algo além, a um campo ou disciplina exterior, enquanto a noção de auto-reflexividade indica um retorno crítico ao ponto de partida, uma tentativa de transformar a disciplina inicial, de acabar com sua isolação, de abrir-se a novas possibilidades de expressão, análise, cooperação e compromisso”[5]. Holmes chama esse movimento de investigações “extradisciplinares”, como alternativa ao banalizado termo “interdisciplinaridade”, e o relaciona com o desenvolvimento do que era chamado de crítica institucional.

Mas talvez seja importante aqui fazer uma pausa para explicar brevemente algumas diferenças existentes entre interdisciplinaridade, multidisciplinaridade (ou pluridisciplinaridade), e transdisciplinaridade, que é a terminologia mais utilizada no âmbito acadêmico. A tendência mais adotada é a diferenciação por meio dos modos de coordenação e cooperação entre as disciplinas. Assim, a multi ou pluridisciplinaridade se configura como “uma justaposição de conteúdos de disciplinas heterogêneas ou a integração de conteúdos numa mesma disciplina”[6] sem que métodos e teorias sejam alterados. A interdisciplinaridade propõe uma relação de mutualidade ou interação, estabelecendo intersubjetividades e intercâmbio entre conceitos e métodos. Por sua vez, a transdisciplinaridade seria o nível mais alto das relações iniciadas nos níveis anteriores, pois define e resolve problemas independentemente de disciplinas específicas, e assim transformando disciplinas ao remover os seus limites. Se a multi ou pluri disciplinaridade é muito superficial no contato entre as disciplinas, a transdisciplinaridade é demasiadamente utópica. Portanto, entre os dois níveis, a interdisciplinaridade se tornou o termo mais popular e defendido nos discursos acadêmicos e institucionais.

Se seguirmos a definição acima, fica evidente para quem acompanhou as apresentações abertas do projeto Zona de Risco que ele resultou principalmente em uma experiência multidisciplinar entre as artes: bailarinos dançaram textos interpretados por atores que atuaram com a musicalidade criada pelo grupo de músicos, tudo em um cenário que era elaborado pelos artistas visuais. Como o próprio blog do projeto descreve, tratou-se de um processo de “colagem” e “justaposição”. É claro que existiram conflitos e momentos de “fusão”, mas parece que para ser interdisciplinar seria necessário algo mais do que simplesmente o desejo de ser interdisciplinar (a celebração da interdisciplinaridade) ou “híbrido”, outro termo utilizado ao longo do desenvolvimento do Zona de Risco.

Ao analisarmos algumas manifestações interdisciplinares antecedentes entre artistas, como o movimento surrealista ou os conceitualistas do leste europeu, é notável que a ideologia, um programa estético comum, ou uma certa atitude política, era mais importante do que o rompimento entre as bordas entre poetas, artistas, filósofos, escritores e cineastas[7]. Vale lembrar também que no clássico Gesamtkunstwerk de Richard Wagner havia um projeto estético e político bem claro.

Não interessa aqui discutir ou julgar as qualidades dos projetos estéticos, políticos e/ou ideológicos dos exemplos acima, mas apontar que a falta de um projeto coletivo crítico comum (que é diferente da escolha de um “tema” comum, como “fronteira” foi em determinado momento para o Zona de Risco), decorrente do encontro gerido institucionalmente dos grupos participantes do Zona de Risco, acabou por reforçar uma idéia romântica de autonomia da arte, o que não parece ser o objetivo dos grupos quando trabalham isolados.

É evidente que existe uma dificuldade que se relaciona com o que é conhecido na produção contemporânea como “institucionalização da critica” e como “trabalho de arte encomendado” que problematiza a ação do artista dentro da instituição e é capaz de impossibilitar qualquer trabalho crítico. Mas voltando ao que Brian Holmes denomina de “investigações extradisciplinares”,  existe uma nova geração de artistas que sobrevivem a isso. Os projetos de tais artistas, geralmente coletivos, “são baseados em uma circulação de disciplinas, freqüentemente envolvendo a reserva crítica real de posições marginais ou contraculturais (…) que não podem ser reduzidas a uma instituição que tudo abarca. (…) É o compromisso político, em quase todos os casos, que lhes dá o desejo de perseguir suas investigações exigentes para além dos limites de uma disciplina artística ou acadêmica.”[8].  Quer seja inter ou extra disciplinar, parece que é a instituição que agora tem que compreender melhor qual seria o seu papel nesse processo. No Brasil as coisas caminham mais devagar e ainda precisamos entender a troca entre as disciplinas não só da própria arte, mas sim da arte com campos diversos, sendo críticos ao pensamento que se desenvolveu no século XVIII.

(imagem do projeto Zona de Risco)


[1] De acordo com o folder de divulgação do projeto, o Zona de Risco se configurou como um “laboratório interdisciplinar de criação e apresentação de manifestações artísticas inéditas”.  Quatro grupos heterogêneos, o coletivo BijaRi (artes visuais), a Cia. Maurício de Oliveira e Siameses (dança), o duo Müvi (música) e a Cia. Phila 7 (teatro) foram convidados para desenvolverem  “formas de interação, interseccção ou diálogos artísticos” no Espaço Cênico Ademar Guerra do Centro Cultural São Paulo., no segundo semestre de 2009. Aos sábados, em apresentações chamadas “Zonas Abertas”, os participantes deveriam apresentar ao público o processo de desenvolvimento.

[2] SHINER, Larry. The Invention of Art: A Cultural History. Chicago: University of Chicago Press, 2003. p.20

[3] (idem) p.5

[4] HOLMES, Brian. Investigações extradisciplinares: para uma nova crítica das instituições. Concinnitas, Revista do Instituto de Artes da Uerj, Rio de Janeiro, ano 9, n. 12, jul. 2008. p.7.

[5] (idem) p.8

[6] FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade – Um Projeto Em Parceria. São Paulo, SP: Loyola, 2002. (1991). V. 13 Coleção Educar. p. 31.

[7] GROYS, Boris. VIDOKLE, Anton. Art beyond the art market. Notes for an art school. p.4. Disponível em: http://www.manifesta.org/manifesta6/index.htm

[8] HOLMES, 2008, p.12.

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Quando não se tem resposta

 

“Coisa estranha é a escrita. Tudo indica que sua aparição não poderia deixar de determinar mudanças profundas nas condições de vida da humanidade; e que essas transformações deveriam ser, acima de tudo, de natureza intelectual. A posse da escrita multiplica fantasmaticamente a capacidade dos homens para preservar os conhecimentos. Com facilidade a conceberíamos como uma memória artificial, cujo desenvolvimento deveria acompanhar-se de maior consciência do passado, portanto de maior capacidade para organizar o presente e o futuro. Depois de eliminarmos todos os critérios propostos para distinguir a barbárie da civilização, gostaríamos de reter pelo menos este: povos com ou sem escrita, uns capazes de acumular as aquisições antigas e progredindo cada vez mais rápido rumo ao objetivo que se fixaram, ao passo que os outros, impotentes para reter o passado além dessa franja que a memória individual é suficiente para fixar, permaneceriam prisioneiros de uma história flutuante `a qual faltariam sempre uma origem e a consciência duradoura de um projeto.

Contudo nada do que sabemos sobre a escrita e seu papel na evolução justifica tal idéia. Umas das fases mais criativas da história da humanidade situa-se no início do Neolítico, responsável pela agricultura, pela domesticação dos animais e por outras artes. Para chegar a isso, foi preciso que, durante milênios, pequenas coletividades humanas observassem, experimentassem e transmitissem o fruto de suas reflexões. Essa imensa empreitada desenrolou-se com um rigor e uma continuidade atestadas por seu sucesso, enquanto a escrita ainda era desconhecida. Se esta apareceu entre o IV e o III milênio antes de nossa era, devemos enxergá-la como um resultado já longínquo (e talvez indireto) da revolução neolítica, mas de modo algum como a sua condição. A que grande inovação estaria ligada? No plano da técnica, praticamente só se pode citar a arquitetura. Mas a dos egípcios ou dos sumerianos não era superior `as obras de certos americanos que ignoravam a escrita no momento da descoberta. Inversamente, desde a invenção da escrita até o nascimento da ciência moderna, o mundo ocidental viveu algo como 5 mil anos durante os quais seus conhecimentos flutuaram, mais do que aumentaram. Com freqüência observou-se que entre o gênero de vida de um cidadão grego ou romano e o de um burguês europeu do século XVIII não havia grande diferença. No Neolítico, a humanidade deu passos de gigante sem o auxílio da escrita; com ela, as civilizações históricas do ocidente estagnaram por muito tempo. Talvez fosse inconcebível a expansão científica dos séculos XIX e XX sem a escrita. Mas essa condição necessária decerto não é suficiente para explicá-la.”

 

Hipóteses ou de inter para trans

 

 

Pode ser que a interdisciplinariedade, palavra que me une a vocês neste território virtual (o blog) e presencial (o CCSP), tenha se tornado um símbolo vazio de significado por fazer parte de um universo conceitual um tanto desgastado da arte contemporânea.

Talvez o que importe venha antes e depois desta palavra, ou seja, tem me parecido que devemos sublinhar aqui o movimento em si de buscarmos um endereçamento comum para esta palavra, de desenharmos posicionamentos e não mais dizer que tudo é válido se este tudo entra num balaio, é chacoalhado, e sai inter-alguma-coisa para ser aplaudida por sua originalidade ou irreverência.

Apesar da citação que inaugura este texto, o intento aqui não é desqualificar a potência das palavras e sim levarmos em conta o caráter sagrado, evocativo e preciso das mesmas. Bem como, nos atentarmos no cotidiano para o que acontece para além destes signos: os nossos movimentos diante delas e o movimento que as propulsiona para o mundo, o que as faz existir.

 

Um lugar/estado

Percebo que o vazio, que trago como imagem depois de uma investida arranhada no sentido de dar forma ao significado desta palavra e compartilhá-lo, traz sim uma qualidade delineável: existe um caráter espacial na interdisciplinariedade. Espacialidade esta que se configura a partir de estruturas, vetores e relações.

Bem, se sugiro que a coisa em si deva ser compreendida como um espaço, um vazio, um lugar a ser desvendado, e ao mesmo tempo, digo que esta espacialidade se dá por relações, logo, me arrisco a afirmar que hoje tais estruturas ainda sofrem o problema de serem compreendidas e compartilhadas como transparentes de mais, misteriosas de mais ou banais talvez.

 

 

Por lugar/estado frutífero

Eu diria que antes deste lugar/estado vir ao mundo existam preparações (dos corpos e saberes) que viabilizam sua existência:  curiosidade e busca de clareza do que se deseja. Ou seja, apesar do querer parecer algo simples, espontâneo, talvez estejamos numa época em que somos bombardeados por informações sedutoras, por estratégias de marketing que despertam vontades, e neste contexto, ficam velados os quereres essenciais da natureza humana de cada indivíduo.

Acredito, que o que propulsiona a busca do significado de um símbolo é a clareza de que existe uma importância vital em dar forma ao mesmo e esta importância, acredito, surge de um encontro do indivíduo com os seus desejos, ou melhor, uma conexão do indivíduo com os desejos do coletivo (no sentido atemporal da humanidade) que se manifestam nas, e habitam as, entranhas de cada um.

Antes as preparações, no centro um lugar vazio e depois: frutos… Frutos que afirmam a existência do vazio agora enquanto campo de potência, enquanto ventre.  Proponho mudarmos o foco de interesse desta investigação de inter para trans.

 

.br

Isso porque a priori ao evocar tal caráter espacial da palavra interdisciplinar me aparece diante dos olhos uma paisagem estéril, higienizada, translúcida e impalpável. Por ser um dia de sol, por me espremer entre pessoas dentro do ônibus, por me interessar pelo afeto próximo, sinto vontade de transfigurar esta referência, rechear este imaginário de matéria orgânica: o entrelaçamento de pensamentos, de corpos, de experiências, de expressões.

Quem sabe assim, usando o radical trans, o assunto nos diga mais respeito, não porque queremos falar de trans-as o tempo todo (e também por isso) mas pelo desejo de falar diretamente da vida, dos ciclos e principalmente dos aprendizados “maiores”. O radical trans também diz respeito ao que vai além. O saber do velejador, do saltimbanco, do contador de histórias, do sonhador de uma tribo, do homem que está próximo da natureza e se abre para conhecer em si outras percepções (já que o que organiza o espaço da natureza não são semáforos, escadas rolantes e relógios).

A proposta então é tornar visível os ambientes antes transparentes, abrir o campo perceptivo pela evocação sinestésica da palavra: dar ruga e aspereza `as palavras para que sejam capazes de manifestar os vetores muito velozes e as relações de alta intensidade que são capazes de tocar.

 

 

 

______  ______

 

 

Uma pessoa diante da outra, em poucos casos, ficam em silêncio e escutam (o escutar é tátil). Geralmente tagarelamos e me parece que então, fazemos uso das palavras de maneira bastante automática, habitual; sem o tempo necessário dos corpos perceber e comunicar em outras camadas de significação os desejos que vem da mobilização de todas as células para a produção de um único símbolo.

Mas se neste “silêncio proposto”, sem as devidas tagarelices, depois de um longo tempo, é “permitida” a palavra, teremos uma primeira. Então, por ser preciosa, ao  desenrolar no espaço pelo fluxo de ar que percorre as cordas vocais, fossas, cavidades e todo o ambiente úmido da boca, lhe daremos a devida importância, seremos capazes de acompanhar este movimento. Com a mesma qualidade que deveríamos dar importância `a água que sai das torneiras de nossas pias, `a comida que nos chega dia-a-dia, `a presença de pessoas especiais que nos acompanham. (hipótese)

 

WWW e o cinema 3D

Em determinado momento de nossa história, organizar diversas instâncias do cotidiano em gavetas, compartimentos, setores, áreas, pode ser que tenha sido uma evocação da qualidade que venho aqui sublinhar: do humano em estado delicado/bruto. Mas se seguimos habitualmente a organizar nossas relações como em determinado momento, deveríamos rever as menores ações e realmente nos propormos `a vivenciá-las em sua completude. Trans-relacionar pede que os compartimentos, setores, matérias já existentes e assim organizados não sejam exatamente extintos mas que no momento em que forem reafirmados que isto seja feito sempre de forma inaugural pois especificidades em muitos casos fazem sentido e trazem profundidade em determinada direção. Reverenciar o que foi criado com dedicação e ter atenção no que está acontecendo agora me parece válido. (hipótese e a simultaneidade do tridimensional).

Em época de cataclismas, revoltas de ventos e marés… o ser humano dá-se conta de sua fragilidade, enquanto unidade e enquanto espécie. Numa floresta isso fica bastante evidente pois alí compartilhamos o espaço com outros seres, outras formas de vida. Então inventamos a cidade. Por livre e espontânea manifestação? As cidades são relativamente recentes na história da humanidade. Os agrupamentos de seres humanos não. Nos reunimos, acredito, para nos proteger e para criar (entre outros).

A organização das famílias como se dão em sua maioria hoje é um desenho fruto de uma sociedade burguesa que de certa maneira imita um modelo das famílias reais e nobres (com a licença de uma explicação rápida): mãe, pai e filhos, cada núcleo deste em uma casa, um apartamento: linhagens sanguíneas, sobrenomes. Em contrapartida, em certas tribos indígenas e comunidades os filhos se misturam e são cuidados por todos.

As estruturas objetivas, concretas, a arquitetura e seus cálculos precisos, se desmancham com a chuva. Muitas famílias se fazem e desfazem sem sabermos ao certo qual a melhor maneira de se viver. Busca-se organizar, criar bases, pontos de apoio: religiões, dogmas, leis, modelos e marcas. Mesmo porque, depois de uma interpere nos mobilizamos para dar conta das advertências.

Ou seja, revela-se uma contradição que divide o ser humano pelo meio: de um lado somos animais, temos nossos instintos e percepções em ação constantemente; do outro, temos a história, a cultura, a construção, a coletividade crescente e a produção de artifícios.

Afirmamos a estrutura palpável: as ruas e avenidas que organizam, as hierarquias e grades fortes que sustentam, pois parece difícil agüentar a falta de casa, a falta de saber do dia seguinte… (isso num sentido de maioria já que ainda existem nômades que afirmam dia a dia a transitoriedade). Um guia que leva turistas num parque diz que inteligentes são os macacos que carregam suas famílias nas costas e todos os lugares são suas casas. Ali, mais pra frente é, e, lugares passados também podem vir a ser novamente.

Estive no Piauí e visitei as cavernas do Parque Nacional da Serra da Capivara onde estão as pinturas rupestres mais antigas do Brasil. É realmente uma experiência incrível. A paisagem é composta por grandes pedras pois explica-se que antigamente ali era mar. Essas formações desenham tocas e cavernas que são ambientes muito acolhedores, principalmente diante da flora e da fauna tão abundantes da região. Apesar dos perigos e adversidades da mata, onças, cobras, chuvas fortes, se você anda em grupo e entra nestas tocas se sente incrivelmente abrigado. É nestas tocas que estão as pinturas rupestres mais antigas das Américas, tão especiais, produzidas com o uso do óxido de ferro (facilmente encontrado na região) diretamente sobre as pedras.

Nos últimos tempos também tive a oportunidade assistir, no acervo do CCSP, vídeos produzidos por Claude Levi Strauss no início do século XX a respeito de comunidades indígenas brasileiras as quais visitou. É bastante interessante pois, diferente do que eu imaginara, estes vídeos foram editados e os recortes propostos pelo etnógrafo conferem ao material um ponto de vista delicado e crítico.

É muito bonito ver como são ricas as relações de tais povos com a sobrevivência, com a vida, com a espiritualidade, com os afazeres, com as relações entre seres em seus cotidianos: tudo isso num mesmo patamar de importância: arte. Fogueira, nascimento, morte, música, sonho, dança, cuidado, busca de alimento, sexo, espírito de comunidade…

“(…) Ulikandé parece querer dizer “aquele que une” ou “aquele que liga junto”. Tal etimologia sugere que o espírito indígena é consciente desse fenômeno que já salientei, ou seja, que o chefe aparece como a causa do desejo do grupo de se constituir enquanto grupo, e não como o efeito da necessidade, sentida por um grupo já constituído, de um autoridade central.”

Me mobilizam e encantam estes exemplos e expressões de vidas. Me faz dobrar sobre o desejo de uma outra maneira, bem diferente de desejar uma Coca-Cola. Lança luz nas vontades bastante internas, ou talvez que venham dos astros (a poesia do corpo existir), de sabermos nossos atributos enquanto bicho-homem.

Talvez seja o momento de baixarmos a bola para deixar que para além das organizações humanas, que muito precisam florescer, criar, outras comunidades e pensamentos não escritos possam se manifestar: brotar ou re-brotar.

E este foi apenas o meu exercício, meus exemplos e experiências mais recentes, que podem completar o vazio. Somos muitos.

 

Da capo

Para finalizar, sugiro a releitura do primeiro trecho de Levi Strauss aqui citado e sigo minha reflexão em looping: se a palavra surgiu com o poder de guardar a memória da humanidade que esta possa ser evocada de sua raiz que diz respeito também ao momento de sua não codificação ao momento em que se deu todo o movimento anterior, pré-simbólico, que possibilitou o seu aparecimento. O que são as manifestações artísticas humanas? Que corpos são estes os nossos?

Seguimos em movimento.

 

Agradecimento: Ao Coletivo Urubus e aos membros do GRiD

 

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Entrevista com Juliano Gentile – curador de Música do CCSP

1. Você pode nos contar um pouco da sua trajetória na música: no CCSP e também fora desta instituição?

Antes de entrar no CCSP, há pouco mais de um ano e meio, trabalhei no Centro Universitário Maria Antonia com Lorenzo Mammì. Fui contratado para a assessoria de imprensa, mas acabava fazendo um pouco de tudo, principalmente no que dizia respeito aos shows e concertos. Depois disso fui para a Rádio Cultura, onde era um dos redatores do primeiro noticiário do dia. Essa experiência me possibilitou o contato com a programação e a produção musical. Saí da Cultura para fazer mestrado no Instituto de Artes da UNESP com uma tese sobre o compositor argentino Mauricio Kagel, defendida em agosto de 2008.

2. Como você pensa curadoria em música? Quais os fundamentos que te fazem selecionar um ou outro trabalho? Existem especificidades quando falamos de curadoria em música?

Curadoria em música ainda é algo novo, se comparado às artes visuais. Há festivais e projetos com curadoria, mas é comum que elas sejam pontuais e que tenham curadores externos. Dentro das instituições acho que ainda predomina a figura do programador, até porque na maioria delas é necessário cumprir uma agenda muito intensa de apresentações, como no caso do CCSP, o que torna mais difícil a curadoria. Você acaba selecionando alguns projetos que estão mais amarrados conceitualmente, ainda que toda a programação tenha um mesmo eixo. Enfim, penso que uma das coisas mais interessantes em curadoria musical é perceber e destacar características em comum de um grupo de artistas que normalmente não estariam juntos. Por exemplo, há grupos que usam a voz mas sem letra, como é o caso dos mineiros do PexbaA e de alguns discos dos brasilienses do Satanique Samba Trio. Ao colocá-los lado a lado, percebe-se que a sonoridade é diferente, mas eles tem algo em comum e pouco importa se vieram do rock, do jazz, se tem formação clássica ou vivência no samba. Há influências de vários gêneros, mas o que está em jogo é o uso de um mesmo recurso. Vejo isso como uma forma de se atentar mais à música e menos aos rótulos.

E, sim, há especificidades quando falamos em curadoria em música, assim como toda arte tem sua especificidade. Além disso, há outras questões, como a já citada quantidade de espetáculos e o formato como cada arte se realiza. Isso altera profundamente a maneira como uma mesma idéia vai ser pensada numa exposição que dure três meses e num concerto de 50 minutos.

3. Existem prioridades estabelecidas para compor a programação de música no CCSP como por exemplo a preferência por música brasileira?

Estabelecer um critério como a preferência pela música brasileira é difícil porque no fundo não sabemos ao certo onde estão os limites daquilo que chamamos de música brasileira hoje. Se você pensar que música brasileira é aquela que é feita em nosso país, seria mais justo. A preferência na escolha da programação recai antes sobre a qualidade do trabalho. As vezes um grupo conta com excelentes músicos e o CD é muito bem gravado, mas a música soa “reciclada” demais, as vezes é o contrário. Enfim, tudo isso tem que ser levado em conta. De modo geral a Curadoria de Música (Eu, Francisco Coelho e Nilson Copede) procura promover novos artistas. Eles compõem boa parte da programação.

No caso das séries de música clássica, Vivemos em 2009 uma presença maior da música contemporânea, principalmente no mês de agosto, que antecede o Festival Música Nova. É curioso porque você pode esperar de tudo nesses concertos: pessoas que querem ouvir o repertório tradicional e se incomodam a ponto de sair da sala ou aquelas que nunca haviam freqüentado nossa sala de concerto e se interessaram justamente pelo programa contemporâneo. Isso mantém certa diversidade na programação. Inserir esse tipo de música nem sempre é fácil, por motivos internos e externos, mas vale o risco. Uma maneira de lidar com o repertório que é pouco executado em salas de concerto é promover séries específicas, como foi esse caso citado acima. Outro exemplo interessante aconteceu em outubro do ano passado com o Festival de Música Experimental, em parceria com o Centro Cultural da Juventude. Foram oito shows de grupos variados, a maioria deles trabalha com improvisação, como Phil Minton e Márcio Mattos, mas havia música eletrônica, folk, rock etc. O fato de estarem dentro de um mesmo projeto deu não só maior visibilidade mas agregou muita gente interessada em novas formas de composição, para além do formato canção.

4. O Centro Cultural vem propondo atividades em suas programações que propõe o encontro entre diversas áreas das artes, encontro este por vezes denominado de interdisciplinar, como isto se dá na programação de música do CCSP?

5. Você poderia apontar trabalhos já apresentados no CCSP que tenham esta característica e que foram marcantes? Poderia citar referências que te instigam neste sentido? (Aqui podem ser referências nacionais e internacionais,  textos ou qualquer outro tipo de manifestação que de alguma forma estabeleça link com a questão interdisciplinar a partir de seu ponto de vista).

As duas perguntas podem ser respondidas de uma vez. Cito dois exemplos que considero mais marcantes. O primeiro foi em setembro de 2008 durante um projeto chamado Jam de Dança. A cada mês a curadoria de música indicava um artista ou grupo para se apresentar junto com dançarinos no palco da Sala Adoniran Barbosa. O público era convidado a participar. Neste referido mês indicamos dois excelentes instrumentistas, Thomas Rohrer e Panda Gianfratti. Ambos integram o coletivo Abaetetuba e trabalham como duo há algum tempo, o primeiro toca rabeca e sax e o segundo percussão. Indiquei-os porque eles fazem a chamada improvisação livre, que não tem nada a ver com jazz ou free jazz (embora possa ter alguma influência na formação dos músicos). Não fazem variações de tema nem utilizam uma métrica regular, compondo a música de fato na hora da apresentação. A idéia era que os dançarinos e o público não ficassem apenas respondendo à música, como numa pista de dança, mas que também a música fosse composta a partir de seus movimentos, uma experiência que remete à parceria de John Cage e Merce Cunninghan. Houve um diálogo, o que a meu ver é a base de toda improvisação. O encontro entre música e dança aconteceu de maneira forte porque envolvia o processo de criação de cada uma delas e determinava o resultado visual e sonoro.

Depois disso, esse mesmo duo foi convidado para abrir a exposição Passagens Secretas junto com o artista plástico Guilherme Dable, que produzia desenhos colocando uma espécie de papel carbono nos instrumentos, a qual registrava o toque do músico. O efeito era mais visível em instrumentos de corda, com a folha entre as cordas e o braço, e de percussão. O Guilherme já havia feito isso com uma banda tocando o álbum Branco dos Beatles, mas ainda não tinha experimentando com improvisação. Isso é que foi interessante porque o trabalho dele alterava o que os músicos estavam fazendo de uma maneira diferente do que acontecia com a banda que tocou o Álbum Branco, em que você reconhecia a música com a interferência do som produzido através do uso do papel. Nesse caso, como a composição não estava pronta, os músicos tiveram que incorporar esse “erro” provocado pelo papel no instrumento. Os dois encararam muito bem.

Acho que existem diferentes maneiras de se pensar o encontro entre as artes. Talvez uma das mais interessantes seja propor ao artista assumir esse risco que afeta seu trabalho já no momento da criação. Comentei os dois exemplos ligados à improvisação livre porque é um tipo de música que permite isso.

A forte presença do visual na escuta hoje nos levou também a refletir sobre propostas que reflitam isso, por exemplo selecionando vídeos em que a música não seja um pano de fundo mas um elemento constitutivo, mas ainda é só uma idéia…

6. Na programação de música existem atividades que estimulem a reflexão da música, como por exemplo, conversas com artistas e teóricos da área? Você acha importante a apresentação de uma obra ser acompanhada por uma discussão aberta ao público? Qual o formato atualmente utilizado para estas discussões no CCSP? Vocês já pensaram em diferentes possibilidades de formato para estas discussões?

Já houveram várias experiências nesse sentido. Do antigo Idart (Departamento de Informação e Documentação Artística) está disponível no site do CCSP três volumes da Coleção Cadernos de Pesquisa: “Música Contemporânea I e II”, com depoimentos dos compositores Silvio Ferraz, Mário Ficarelli, Marcos Câmara, Flo Menezes e Edson Zampronha, e o “Tributos à Música Brasileira”, com transcrições de entrevistas da folclorista Oneyda Alvarenga e dos compositores Camargo Guarnieri e Lina Pires de Campos. Em 2006 foi publicada uma outra coleção, coordenada pelo Francisco Coelho, também voltada à música contemporânea brasileira. São cinco volumes com CD, partituras, depoimentos e comentários sobre os compositores Almeida Prado, Edino Krieger, Edmundo Villani-Cortes, Gilberto Mendes e Rodolfo Coelho de Souza. Eles foram lançados durante uma semana de concertos.

Neste ano queremos promover atividades reflexivas em um projeto que teve início no ano passado chamado Outubro Independente. Na edição passada, fizemos várias apresentações em parceria com o CCJ, Galeria Olido e algumas bibliotecas municipais. A idéia agora é promover também encontros e debates não só entre artistas, mas também entre aqueles que participam da produção, crítica e difusão cultural. Afinal as coisas mais interessantes que estão surgindo em música acontecem na chamada “cena independente”. Então queremos discutir o que é produção independente e como isso pode afetar a criação. Além disso, como pano de fundo fica a pergunta: independente de que?

Quanto ao formato, pensamos em uma inserção maior na internet, por exemplo, com a criação de blogs que não restrinjam o debate a um determinado evento.

7. Existe um acervo bastante rico de músicas no Centro Cultural coletado por Mário de Andrade na Missão de Pesquisas Folclóricas que realizou no Brasil no início do século XX, certo? Como este material é compartilhado com o público? Já existiu alguma atividade da programação de música que envolvesse este acervo?

A Missão de Pesquisas Folclóricas, incluindo registros sonoros e outros materiais folclóricos, fazem parte do acervo histórico da Discoteca Oneyda Alvarenga. Justamente por ser um material muito precioso, o acesso para pesquisadores é sempre acompanhado por funcionários. Só no ano passado tivemos dois projetos que envolviam esse acervo. O primeiro deles foi o lançamento do DVD “Camargo Guarnieri – 3 concertos para violino e a missão”, também coordenado pelo Francisco Coelho, com um DVD com documentário e a gravação dos concertos no Teatro Municipal e um CD-ROM com partituras dos concertos e de melodias populares do acervo, além de outros documentos. O segundo foi o que chamamos de “Fim de Semana Mário de Andrade”, que teve um concerto comentado e uma palestra com o pianista Achille Picchi e o tenor Lenine Santos. Também tiveram dois shows, um com a Iara Rennó e outro com o grupo de hip hop Elo da Corrente, construindo bases a partir das gravações da Missão que foram lançadas em CDs e entraram em domínio público. Todos os artistas desse projeto foram convidados a trabalhar em cima desse acervo.

8. Poderia nos contar um pouco de como surgiu a idéia do Sarau Astronômico? (Aqui se desejar citar algum evento específico no qual tenha acontecido algo de especial fique a vontade).

O Sarau Astronômico foi criado pela Divisão de Ação Educativa em parceria com o Planetário. Eles é que podem falar sobre o seu surgimento. Nós da curadoria de Música participamos da escolha de alguns dos músicos que integraram o projeto.

9. Poderia nos contar um pouco sobre o projeto Paradas Sonoras e qual a relação deste com a curadoria de música?

O projeto Paradas Sonoras foi inaugurado em setembro do ano passado. São 7 pontos de escuta individual, em dupla ou coletiva, espalhados pelo CCSP. Desde seu início ele está relacionado à curadoria de música porque o objetivo é vincular programação e acervo. Na sua inauguração, por exemplo, boa parte da programação musical estava voltada ao centenário de Ataulfo Alves. Assim, foi feita uma seleção de cerca de vinte músicas. Desde então temos orientado seleções musicais para esses pontos. O interessante é que disponibilizamos gratuitamente o acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga, que em 2010 completa 75 anos e é um dos maiores acervos musicais da América Latina, especialmente de discos de 78 rpm. Num contexto em que o acesso à música é cada vez mais facilitado pela tecnologia, o que está por trás dessa iniciativa é uma questão fundamental: qual a função de uma discoteca pública hoje? O projeto Paradas Sonoras começa a dar essa resposta porque ele não só disponibiliza uma parte do acervo aleatoriamente, mas apresenta recortes elaborados a partir da nossa programação. Junto com as músicas há também informação. Além disso, três dos pontos de escuta estão situados no próprio espaço da discoteca e são voltados a pesquisadores, disponibilizando não só seleções temáticas, mas tudo o que já foi digitalizado.

10. Por fim gostaria de saber se teria alguma sugestão no sentido de estimularmos possibilidades “interdisciplinares” no CCSP.

Avaliar essas experiências de parceria entre duas curadorias. Isso pode nos dar subsídios para maturarmos projetos futuros envolvendo outras áreas e não transformarmos a interdisciplinaridade em algo programático, que dependa de muita explicação em detrimento da própria obra.

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Reflexões acerca do hibridismo

Muito se fala em hibridismo na arte contemporânea. Nas artes “espetaculares”, por assim dizer, esse termo é tão recorrente quanto nebuloso. A arte dita “híbrida” me parece ser simplesmente aquela arte que tanto o crítico quanto o público ou o jornalista, não sabe definir sua natureza. (Seria aquele um espetáculo de dança? Ou seria de teatro? Ou seria uma performance? Ou uma vídeo-performance?)Mas, afinal o que seria uma arte híbrida?

Não desejo aqui (e mesmo que desejasse não conseguiria) chegar à uma resposta absoluta. Tampouco penso que haja uma. Mas, mesmo dessa simples afirmação que venho de fazer – híbrida é uma arte da qual não se reconhece a natureza dentre as linguagens artísticas já convencionadas – podemos avistar alguma pista do que pode ser esse tal hibridismo na arte.

Segundo Laurence Louppe em certo texto intitulado (na tradução em português) “Corpos híbridos”: “Esse híbrido não se situa em nenhum lugar, não é nada. Frequentemente ele é totalmente isolado e atípico, o resultado de uma combinação única e acidental. A hibridação funciona muito mais no lado da perda. A hibridação age mesmo na nucleação dos genes, ao subvertê-los e deslocá-los. Ela pode criar uma relação não entre raças, mas entre ‘espécies’ incompatíveis, dando a origem a criaturas aberrantes, destacadas das comunidades vivas.”

Ora, de fato, o híbrido, no campo da biologia, seria um ser resultante do cruzamento entre diferentes espécies (como zebra e asno, tigre e leão) o que cria um terceiro ser, não pertencente nem à primeira e nem à segunda espécie.

Se importássemos o conceito científico para o campo da arte de forma “literal” (procedimento usado por Louppe), podemos compreender que uma obra híbrida seria, então, uma obra resultante do cruzamento entre linguagens artísticas diferentes, mas que não seja pertencente nem a uma linguagem, nem a outra, sendo, portanto, uma terceira coisa.

Desse pensamento o que me interessa, e digo isso principalmente como artista, é essa idéia de “cruzamento” entre diversas linguagens. Mais do que simplesmente colar diversas formas artísticas uma ao lado da outra, o procedimento seria o de fato criar uma intersecção real entre as linguagens. Mas, afinal o que poderia configurar esse tal cruzamento genético no que diz respeito à arte?

Uma das características fundamentais descritas por Louppe, ao meu ver, é o caráter “acidental” desse cruzamento. Isto é, me parece que em uma criação artística em que estão envolvidas diversas linguagens, para haver de fato a hibridização é necessário não possuir como objetivo (ou, talvez, não possuir apenas como objetivo) o hibridismo, mas sim de fato concretizá-lo a partir de procedimentos processuais que levem o resultado à ele.

O que tento explicar é que não há uma fórmula para o hibridismo. Em realidade seria o real cruzamento entre linguagens (se ele de fato existir) durante um processo artístico que gerará um filho híbrido; sem que se haja um grande controle sobre a aparência desse filho. Digo isso porque, por ser recorrente o termo, me parece que muitos artistas buscam resultados híbridos em suas obras sem antes, durante o processo de criação, fomentar uma real intersecção/cruzamento das linguagens artísticas.

A busca pelo hibridismo como resultado formal e não com um procedimento durante o processo, muitas vezes acaba por criar espetáculos de colagem, onde ao invés das linguagens se esbarrarem, friccionarem e se contaminarem, elas ficam cada uma em sua área de conforto, deixando claro onde está a dança, onde está o teatro e onde está a música. Sem que uma modifique a outra.

Ora, a obra híbrida, me parece, não seria aquela criada à imagem de um centauro (figura mitológica grega metade eqüina e metade humana), mas sim aquela que em seu processo está disposta a se transformar em mula, zebralo, zebrasno ou leopon. Até por isso, acredito eu, Louppe diga que a hibridização está também ligada a um processo de perda.

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Frank Castorf

Tido, aqui no Brasil, como um grande encenador do teatro contemporâneo, Frank Castorf, já foi trazido pela rede SESC com duas peças: Estação Terminal América (adaptação da peça Um bonde chamado desejo de Tennessee Williams) e Na selva das cidades (de Bertold Brecht). A vinda do diretor e sua trupe deu tão certo que no ano de 2006, em um convênio entre o SESC-SP e o Goethe Institut o encenador criou e montou no Brasil (com atores brasileiros) sua versão para a peça de Nelson Rodrigues Anjo Negro (que montou com trechos do texto A missão:lembrança de uma revolução de Heiner Muller) .

Na minha visita à Berlim, neste janeiro de 2010, pude visitar a “casa” de Castorf, isto é, o Volksbuhne (“o palco do povo”), teatro estatal alemão que pertenceu à socialista República Democrática Alemã nos anos que antecederam à queda do muro de Berlim e ao fim da divisão do país. Essa instituição teatral, hoje, é uma das maiores na Europa, possuindo um enorme número de montagens e público.  O Volksbuhne está “sob comando” de Frank Castorf desde 1993 e talvez também por isso, em Berlim, ao contrário do que ocorreu no Brasil na vinda do diretor e suas montagens, Castorf não é visto como um representante de um teatro contemporâneo, mas sim como o diretor de um instituição estatal de “repertório” convencional e já empoeirada.

Acho interessante mencionar essa divergência de olhares – Castorf como diretor de um teatro enferrujado ou Castorf como representante de um teatro contemporâneo – que reflete também o conhecimento ou a falta de conhecimento sobre o contexto da criação e produção do diretor.

No entanto, mesmo sendo ele visto como o diretor de um antigo e convencional Volksbuhne, não pude deixar de notar que a sala do teatro estava lotada de jovens que iriam assistir à sua versão de Medeia. E nessa noite pude observar, mais uma vez, o que sempre me despertou interesse no trabalho de Castorf: a vitalidade de suas encenações. Frank Castorf pode escolher montar textos clássicos para o “repertório” do Volksbuhne, não importa, o que se vê em cena diz respeito a hoje. Sua encenação grita, explode, ironiza, destrói, provoca, violenta.

O que vi, por exemplo, em Anjo Negro + A missão: lembrança de uma revolução é uma discussão calorosa sobre o racismo, não só pelo texto de Muller ou Rodrigues (que lembremos, muitas vezes beira mais o dramático ou até mesmo o trágico do que propriamente o político), mas pela estrutura formal da encenação que vem dar um outro sentido aos textos.

A ironia com que o diretor trata os temas é uma característica que sempre nos afasta epicamente de suas personagens e em Anjo Negro esse distanciamento é estampado na cara: os atores negros fazem os papéis dos brancos e os brancos os papéis dos personagens negros. Os atores são porta-vozes de personagens que falam diretamente à platéia, sem a máscara da ficção, como se aquilo que ocorresse no palco de fato nos dissesse respeito, nos impedido de tomar o lugar do voyeur passivo.

A revolta de seus atores/personagens (nunca vemos apenas um, mas sempre a fricção dos dois) em suas encenações sempre leva à destruição física do espaço. O que muitas vezes acaba por revelar outros espaços, ou mesmo a estrutura do teatro – Em Anjo Negro a destruição das paredes de maderite revelam os câmeras-men que filmam os atores para projetá-los em uma tela na boca de cena. Destruir é revelar, e é na destruição que a peça se faz possível. A violência está sempre latente em sua arte e quando explode é tão potente que não conseguimos nos sentir excluídos dela. É por isso que há aqueles que, como eu, sentem um desejo imenso de pular no palco, mas, por outro lado, há outros que se sentem repelidos, de fato, do teatro. Tanto que em A selva das cidades a platéia do SESC esvaziou quase cinqüenta por cento na metade do espetáculo.

Existe uma dramaturgia da ação presente por cima do texto e ela está na destruição/transformação do cenário, na explosão da luz, no esvaziamento revoltado da platéia.

Segundo Jitka Pelechová, em um artigo sobre o encenador na revista francesa Théâtre/Public, essas características das encenações de Castorf são quase uma “marca de fábrica que impregna de maneira indiscutível a estética de seus espetáculos” e que está “ligada a um passado alemão recente, desde as duas guerras mundiais até a reunificação, em torno de sentimentos contraditórios de culpa e nacionalismo”[1].

Castorf talvez seja o diretor mais político que assisti nos últimos tempos e não porque ele procure racionalmente falar de política, mas talvez porque em suas montagens a autêntica e vital revolta e indignação leve os atores a agirem de fato no presente e a modificarem seu ambiente.


[1] Jitka Pelechová, “Deux repertoires en parallèle – Frank castorf, Thomas Ostermeir” In: Théâtre/Public 194, Paris. 2009.

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Paris —– Berlim

Em uma longa viagem de trem sai da já conhecida cidade francesa e cheguei à cidade alemã, onde nunca antes tinha ido. O frio era o mesmo em ambas capitais, mas, diferente da ensolarada Paris que deixei para trás,  a cor do céu e do chão da cidade alemã eram pequenas variações de cinza até chegar ao branco da neve.

Berlim, no entanto, mesmo tendo uma paleta de cores morta (céu nublado/asfalto/neve suja), me surpreendeu pela vivacidade de suas ruas. As pessoas, os bares, restaurantes, museus, galerias, teatros… A cidade alemã parece estar, mesmo sob um frio de -8 graus celsius, sempre vibrante.

Deixa-se uma cidade onde se pode assistir diversas peças, espetáculos de dança, exposições e concertos em grandes centros culturais, teatros, óperas e museus, para ir rumo a uma cidade onde se produz, se cria, diversas peças, exposições, concertos…

Uma Paris que foi chamada de cidade luz no final do século XIX e início do XX, por se tratar da capital européia da cultura moderna, efervescente, hoje parece permanecer à sombra dessa modernidade. Em janeiro, no Centre Georges Pompidou (centro cultural parisiense de proposta interdisciplinar) havia duas exposições temporárias em cartaz: “A subversão das imagens. Surrealismo, fotografia, filme” e “Via design 3.0”[1], além, é claro, da sua permanente exposição de obras do acervo. Na ocasião o centro cultural interdisciplinar estava sem programação de teatro, dança ou música em cartaz e possuía apenas uma mostra de cinema na agenda: “Singapour, Malasie, le cinéma!”.

Visitei, então, a bilheteria de um outro local, o Theâtre de la Ville (importante teatro parisiense que, como se lê em seu site[2], possui uma proposta de programação composta por espetáculos contemporâneos, de novos artistas que buscam novos horizontes e intersecções entre as artes); lá encontrei uma brochura com a programação do teatro entre setembro/2009 – junho/2010. De fato, em um ano os parisienses tiveram a oportunidade de assistir a muitos artistas renomados da cena artística atual: Jan Fabre/Troubelyn, Pina Bausch/ Tanztheater wuppertal, Bob Wilson, Heiner Goebbels, Anne Teresa de Keersmaeker (da cia. de dança belga : Rosas). Como se pode ver um conjunto de nomes aclamados pela crítica. Mas uma observação que pude fazer: não há na relação nenhum nome francês. Além de, como podemos perceber, nenhum nome de um novo artista.

Na ocasião fui assistir a uma peça italiana que lá estava em cartaz: teatro lotado, homens e  mulheres de óculos lotando a platéia de poltronas aveludadas e ovacionando a peça que contava a historia de uma fábrica na Itália de Mussolini. Da encenação quase não há comentários a serem feitos: simples, colocava os atores em lugares diferentes do palco para dizerem suas longas falas. Da dramaturgia, uma verborrágica fábula histórica. A peça poderia existir em qualquer tempo/espaço do século XX.

Corta. Estou agora em Berlim, o bairro é Kreuzberg, o antigo distrito dos “marginais” da Berlim ocidental, agora o bairro está em ascensão e abriga o teatro tripartido HAU (Hebbel am Ufe), construído pelo governo para habitar três grandes prédios abandonados da região. Desde 2003 o HAU é o espaço do teatro não-convencional em Berlim. Buscando todas as produções independentes de teatro alemão e estrangeiro, o espaço abriga jovens companhias que buscam (segundo o diretor do teatro) fazer uma arte não-convencional.

O que vi no HAU  foi uma grande concentração de jovens, alguns bebendo no café, outros esperando o início do show que iria ocorrer. Havia, na programação, diversos debates entre os grupos que estavam ocupando o espaço naquele momento, fossem grupos de teatro, vídeo ou performance. Os improvisados palcos e cafés me pareceram muito mais vivos e vibrantes do que qualquer ovacionação da platéia francesa, que logo após o espetáculo assistido entrou pelos túneis de metro e sumiram.

Na descrição que Mario Vargas Llosa faz de Berlim: “Em todos os conjuntos de prédios que vão da porta de Brandebourg à Alexander Platz surgiram – algumas vezes em garagens, sub-solos e apartamentos deslocados – teatros experimentais, ateliers, clubes de jazz, cinemas de arte e experimentais, cafés, círculos literários, centros de debates políticos, salas de exposição, onde se ouve todas as línguas e se vê todas as raças, se discute todos os temas e onde o cliente tem a impressão exaltante de estar no centro do mundo. Desde meus primeiros anos passados em Paris, no fim dos anos 50, eu nunca tinha sentido nada parecido em nenhuma cidade do mundo.”[3]


[1] Os nomes das exposições são traduções livres do francês.

[2] http://www.theatredelaville-paris.com/

[3] Mario Vargas Llosa, “Berlin, Capitale de l’europe” In: Comment j’ai vaincu ma peur de l’avion. Ed.L’Herne. Paris. 2009. (Tradução Livre do francês)

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