Em uma longa viagem de trem sai da já conhecida cidade francesa e cheguei à cidade alemã, onde nunca antes tinha ido. O frio era o mesmo em ambas capitais, mas, diferente da ensolarada Paris que deixei para trás, a cor do céu e do chão da cidade alemã eram pequenas variações de cinza até chegar ao branco da neve.
Berlim, no entanto, mesmo tendo uma paleta de cores morta (céu nublado/asfalto/neve suja), me surpreendeu pela vivacidade de suas ruas. As pessoas, os bares, restaurantes, museus, galerias, teatros… A cidade alemã parece estar, mesmo sob um frio de -8 graus celsius, sempre vibrante.
Deixa-se uma cidade onde se pode assistir diversas peças, espetáculos de dança, exposições e concertos em grandes centros culturais, teatros, óperas e museus, para ir rumo a uma cidade onde se produz, se cria, diversas peças, exposições, concertos…
Uma Paris que foi chamada de cidade luz no final do século XIX e início do XX, por se tratar da capital européia da cultura moderna, efervescente, hoje parece permanecer à sombra dessa modernidade. Em janeiro, no Centre Georges Pompidou (centro cultural parisiense de proposta interdisciplinar) havia duas exposições temporárias em cartaz: “A subversão das imagens. Surrealismo, fotografia, filme” e “Via design 3.0”[1], além, é claro, da sua permanente exposição de obras do acervo. Na ocasião o centro cultural interdisciplinar estava sem programação de teatro, dança ou música em cartaz e possuía apenas uma mostra de cinema na agenda: “Singapour, Malasie, le cinéma!”.
Visitei, então, a bilheteria de um outro local, o Theâtre de la Ville (importante teatro parisiense que, como se lê em seu site[2], possui uma proposta de programação composta por espetáculos contemporâneos, de novos artistas que buscam novos horizontes e intersecções entre as artes); lá encontrei uma brochura com a programação do teatro entre setembro/2009 – junho/2010. De fato, em um ano os parisienses tiveram a oportunidade de assistir a muitos artistas renomados da cena artística atual: Jan Fabre/Troubelyn, Pina Bausch/ Tanztheater wuppertal, Bob Wilson, Heiner Goebbels, Anne Teresa de Keersmaeker (da cia. de dança belga : Rosas). Como se pode ver um conjunto de nomes aclamados pela crítica. Mas uma observação que pude fazer: não há na relação nenhum nome francês. Além de, como podemos perceber, nenhum nome de um novo artista.
Na ocasião fui assistir a uma peça italiana que lá estava em cartaz: teatro lotado, homens e mulheres de óculos lotando a platéia de poltronas aveludadas e ovacionando a peça que contava a historia de uma fábrica na Itália de Mussolini. Da encenação quase não há comentários a serem feitos: simples, colocava os atores em lugares diferentes do palco para dizerem suas longas falas. Da dramaturgia, uma verborrágica fábula histórica. A peça poderia existir em qualquer tempo/espaço do século XX.
Corta. Estou agora em Berlim, o bairro é Kreuzberg, o antigo distrito dos “marginais” da Berlim ocidental, agora o bairro está em ascensão e abriga o teatro tripartido HAU (Hebbel am Ufe), construído pelo governo para habitar três grandes prédios abandonados da região. Desde 2003 o HAU é o espaço do teatro não-convencional em Berlim. Buscando todas as produções independentes de teatro alemão e estrangeiro, o espaço abriga jovens companhias que buscam (segundo o diretor do teatro) fazer uma arte não-convencional.
O que vi no HAU foi uma grande concentração de jovens, alguns bebendo no café, outros esperando o início do show que iria ocorrer. Havia, na programação, diversos debates entre os grupos que estavam ocupando o espaço naquele momento, fossem grupos de teatro, vídeo ou performance. Os improvisados palcos e cafés me pareceram muito mais vivos e vibrantes do que qualquer ovacionação da platéia francesa, que logo após o espetáculo assistido entrou pelos túneis de metro e sumiram.
Na descrição que Mario Vargas Llosa faz de Berlim: “Em todos os conjuntos de prédios que vão da porta de Brandebourg à Alexander Platz surgiram – algumas vezes em garagens, sub-solos e apartamentos deslocados – teatros experimentais, ateliers, clubes de jazz, cinemas de arte e experimentais, cafés, círculos literários, centros de debates políticos, salas de exposição, onde se ouve todas as línguas e se vê todas as raças, se discute todos os temas e onde o cliente tem a impressão exaltante de estar no centro do mundo. Desde meus primeiros anos passados em Paris, no fim dos anos 50, eu nunca tinha sentido nada parecido em nenhuma cidade do mundo.”[3]
[1] Os nomes das exposições são traduções livres do francês.
[2] http://www.theatredelaville-paris.com/
[3] Mario Vargas Llosa, “Berlin, Capitale de l’europe” In: Comment j’ai vaincu ma peur de l’avion. Ed.L’Herne. Paris. 2009. (Tradução Livre do francês)