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Posts de autoria de Luiza Proença

Pamela Prado (final)

Paradox of Praxis 1, de Francis Alÿs

Paradox of Praxis 1, de Francis Alÿs

(continuação da entrevista iniciada aqui)

Poucos dias antes da sua partida, você visitou Walter Zanini. Poderia nos contar um pouco como foi esse encontro?

A few days before your departure, you visited Walter Zanini. Could you tell us how that meeting was?

Sim, eu entrevistei Walter Zanini um dia antes de eu partir de SP. A entrevista foi no seu apartamento, e eu estive lá com Vinicius Spricigo e Martin Grossman. Zanini é considerado um curador pioneiro, e então, eu estava interessada em saber mais sobre seu trabalho, especialmente no Museu de Arte Contemporênea da USP e nas 16a e 17a edições da Bienal de São Paulo, em 1981 e 1983. Nós discutimos sobre as diferenças do curador do passados e o curador contemporâneo, a relação entre curadores e instituições, bem como o público. Ele falou sobre o modo como ele gerenciou para mudar a abordagem geralmente usada na Bienal, articulando uma nova linguagem entre o centro e a periferia, assim por exemplo ele rompeu as comos pavilhões dentro da Bienal, etc. Nós também conversamos sobre o tempo em que Zanini dirigia o MAC e como foi o primeiro museu no Brasil a estabelecer uma seção de video arte. O encontro foi muito agradável e eu me senti muito inspirada pelo o fato que Zanini, do mesmo modo que aconteceu comigo, morou 7 anos na Europa antes de votar para a América do Sul.

Yes, I interviewed Walter Zanini the day before I left Sao Paulo. The interview took place in his apartment; I went there also with Vinicius Spricigo and Martin Grossmann, Director of the CCSP.  Zanini is widely considered as a pioneering curator, an so, I was interested in knowing more about his work, especially at the Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo and the 16th and 17th editions of the Bienal de São Paulo, in 1981 and 1983.  We discussed about the differences between the curator of the past and the contemporary curator, the relationship between curators and institutions as well as audiences. He talked about the way he managed to change approach usually taken by the Bienal de São Paulo’s by articulating a new language between the center and the periphery; so for instance, he broke up with the pavilions inside the Biennial, etc. We also talked about the time when Zanini was directing the MAC and how it was the first museum in Brazil to establish a video art section. The meeting was very enjoyable and I felt very inspired but the fact that Walter Zanini, in the same way as it happened to me, lived 7 years in Europe before coming back to South America.


Você poderia nos dizer um pouco sobre os projetos nos quais está trabalhando agora?

Could you tell us a bit about what are the projects you are working on now?

Nos últimos 6 meses eu estive curando e organizando exposições em uma ampla variedade de mídias e formatos. Muitos desses projetos aconteceram em Londres. Desde o meu retorno ao Chile eu estou disposta a organizar projetos de vídeo arte, sound art e novas mídias em geral, na américa do sul. Nesse sentido, “Wonderland: ações e paradoxos” é meu primeiro projeto na América do Sul. É uma experiencia muito boa e um caminho para conhecer mais sobre a cena artística em SP. Então eu realmente gostaria de continuar trabalhando com artistas no Brasil.

No momento, eu também estou fazendo uma pesquisa sobre residências artísticas em Londres, NY, LA, Canadá e América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Colombia). Esse processo levou ao desenvolvimento do meu interesse em contruir links entre paises, e esperançosamente avançar na criação de um programa de residência no Chile no futuro.

For the last 6 years I have curated and organized exhibitions in a wide variety of media and formats.

Many of these projects took place in London. Since my return to Chile I am willing to organize projects in South America that would relate to video art, sound art, and new media en general. In this sense, Wonderland: Actions and Paradoxes is my first project in South America. It was a very good experience and a way to know more about the art scene in Sao Paulo. So I would really like to continue working with artists from Brazil.

At the moment I am also doing research about artist residencies in London, New York, LA, Canada and South America (Brazil, Argentina, Chile, Colombia). This process has led to the development of my interest in building links between countries, and hopefully move towards the creation of a residency programme in Chile in the future.

*FIM*

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Pamela Prado (p.6)

(continuação da entrevista iniciada aqui)

Além da sua passagem pelo CCSP você fez um esforço para compreender o circuito de arte atual de São Paulo. O que você pode apreender desse circuito? O que você levou como resultado de pesquisa de campo?

In addition to your sojourn at CCSP you made an effort to understand the contemporary art circuit in Sao Paulo as a whole. What could you absorb from this circuit? What did you take of that field research?

Durante a minha estadia em São Paulo eu visitei alguns ateliês de artistas e eu me encontri com curadores, galeristas e alguns colecionadores também. Minha ideia era entender a cena de arte contemporênea de São Paulo, que é claro muito estimulante e interessante. Me parece que é um espaço de experimentação constante, se tornando um desafio para artistas e curadores.

Enquanto, do lado da prática artística, é muito interessante para a geração emergente, ao mesmso tempo há uma grande valorização do legado de artistas como Oiticica, Pape e Schendel, só para citar alguns. Eu também estava muito interessada no fato que o circuito de arte de São Paulo é muito aberto para a cena internacional e então está conectado com o que acontece em outras partes do mundo. Por outro lado, eu estou certa de que há um número de coisas para melhorar, como talvez uma abordagem mais formal, ou até mesmo reflexiva-teórica ou crítica, para a produção de exposições de arte. Mas uma vez que eu passei somente 6 semanas em SP, eu precisaria de mais tempo para saber se essa impressão é realmente correta.

During my stay in Sao Paulo I visited some artist’s studios and I had meetings with curators, directors of galleries and some collectors as well. My idea was to understand Sao Paulo’s contemporary art scene that is of course very stimulating and interesting. It seems a place of constant experimentation, becoming a challenge to artists and curators.

While, on the side of artistic practice, it is very interesting for the emerging generation, at the same time there is great appreciation of the legacy by artists like Helio Oiticica, Ligia Pape and Mira Shendel, just to name few. I was also very interested in the fact that the art circuit in SP is quite open to the international scene and so it is connected to what happens in other places of the world. But, on the other hand, I am sure there are a number of things to improve, like perhaps a more formal, or even reflective theoretical or critical approach to the production of art exhibitions. But since I spent only 6 weeks in Sao Paulo, I would need more time to know whether or not this impression I had is actually right.

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Pamela Prado (p.5)

livro sobre a exposição "Friends of the Divided Mind"

livro sobre a exposição "Friends of the Divided Mind"

(continuação da entrevista iniciada aqui)

A exposição final da sua turma – Friends of the Divided Mind - se estruturou de maneira mais experimental e quebrando algumas tradições do Royal College. Acredito que existiu uma dificuldade em realizar esse projeto muito semelhante a dificuldade que o GRiD passou, que é desenvolver um projeto em um coletivo que não representa um interesse comum de todos. Poderia nos contar brevemente como Friends of the Divided Mind surgiu e em que resultou?

The final exhibition of your course – Friends of the Divided Mind – is structured in a more experimental and breaking some traditions in Royal College. I think that you had a difficulty in realizing this project much like the difficulty of GRiD had developing a project in a collective that represents a common interest of all. Could you tell us briefly how you came up with Friends of the Divided Mind and in what it resulted?

Friend of the Divided Mind foi uma exposição muito desafiadora comparada com as dos anos anteriores no programa de curadoria. Geralmente existia um consenso sobre uma exposição temática organizada por todo o grupo de alunos/curadores.  Ao invés disso, nós usamos uma metodologia diferente dividindo o dinheiro e dando importancia nos projetos individuais e introduzindo uma certa liberdade para determinar os usos de cada soma de dinheiro.Essa metodologia particular escolhida pelo grupo de 13 alunos/curadores , permitiu que a organizaçñao do espaço em que cada um de nós foi autorizado para engajar com ou contradizer os outros. Portanto, o foco da exposição foi de fato evidenciar a dominância negociada e ao mesmo tmepo o debate de como uma única organização pode incorporar e representar múltiplos pontos de vista. O resultado foi 4 projetos que desenvolveram em trajetórias relativamente independetentes e apresentadas juntas como uma única exposição desenvolvida. Esses projetos foram provinientes de uma série diversa de abordagens de curadoria contemporânea, do museu ao evento, do artist run space (espaços independentes de artistas) às galerias comerciais.

Friends of the Divided Mind was a very challenging exhibition if compared with previous years in the MA curating programme. Usually there was a consensus on thematic exhibition organized by the whole group of curators. Instead of that, we took a different methodology by dividing the money and giving importance to individual projects and introducing certain freedom to determine the uses of each representative sum of money. This particular methodology chosen by the group of 13 curators, enabled the organization of space in which each of us were allowed to engage with or contradict the others. So, the focus of the exhibition was indeed to evidence the negotiated dominance and at the same time the debate of how one singe organization could embody and represent multiple points of view. The result was four projects that developed along relatively independent trajectories and presented together as a singular exhibition construct. These projects were coming from a diverse range of contemporary curatorial approaches, from the museum to the event, from artist run spaces to commercial galleries.

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Pamela Prado (p.4)

(continuação da entrevista iniciada aqui)

Gostaria que você contasse um pouco sobre sua formação no Royal College, em Londres, escola na qual você recém recebeu um MA em curadoria, pensando principalmente na importância do curso (ou formação do curador). Aqui no Brasil os primeiros cursos de curadoria estão surgindo e ainda é dificil avaliar o perfil do aluno que está sendo formado, mas mesmo assim existe uma resistência grande por parte de muitos profissionais da arte, que temem uma formação superespecializada que não é decorrente de uma experiencia em história e crítica de arte. Como o ensino de curadoria é visto na Inglaterra?

Could you tell us a little about your studies at the Royal College in London, where you just received an MA in curatorship, especially about the importance of the course (or the importance of the curating degree). Here in Brazil the first curatorial courses are emerging and it is still difficult to evaluate the profile of the students being formed by them, but there is a relevant resistance from many art professionals, that have fear an over-specialized training that is not a result of an experience in history and art criticism. How is teaching curatorship seen in England?

Em 2009 eu me graduei como mestre em Curadoria de Arte Contemporânea no Royal College of Art, em Londres. O curso de mestrado foi criado em 1992, co-fundado pelo Royal College e o Arts Council of Grat Britain, e foi o primeiro programa de pós graduação na Inglaterra especializado na prática curatorial e o segundo programa no mundo.

Mas muito antes da ascensão do curador começar em 1960 e como um resultado, eu diria, a nossa percepção de exposição mudou e o contexto da obra de arte passou a ter um papel fundamental. Nesse sentido, eu acredito na importância do estudo em curadoria não é independente dos aspectos da história e da crítica de arte, nós podemos pensar na história das exposições, por exemplo. Mais ainda, é uma maneira de aprender formatos de exposições diferentes, modelos de curar, a compreensão das ligações entre as exposições e a produção cultural através das lentes da prática curatorial, enquanto ao mesmo tempo considerando seus efeitos possíveis na história da arte e no campo institucional. Eu posso pensar, por exemplo, no que Boris Groys argumenta sobre curar, quando ele diz que o trabalho de arte precisa de uma ajuda externa, precisa de uma exposição e um curador para tornar-se visível. A exposição é a melhor luz para fazer uma obra aparecer e portanto o curador exerce um importante papel que é fundamental para o surgimento e o desenvolvimento de uma exposição, atuando como intermediário entre a obra e o lugar da exposição, e assim criando um diálogo com os artistas, conectando eles com a estrutura da exposição, e ao mesmo tmepo ajudando a manter sua autonomia e identidade.

Quanto ao caso específico do RCA, o programa visa proporciona rum rigoroso treinamento profissional e acadêmico em curadoria de arte contemporânea em ambas as esferas, pública e privada. Junto com uma consideração abrangente da prática curatorial recente de arte contemporânea, o curso inclui teoria critica, história da arte recente, história e teoria das exposições, exame crítico da prática curatorial, com especial ênfase na seleção e apresentação de exposições de arte contemporânea, a programação das galerias públicas e o comissionamento de arte para espaços públicos e uma compreensão detalhada de como as instituições de arte estão estruturadas e gerenciadas.

In 2009 I graduated from the MA in Curating Contemporary Art at the Royal College of Art in London. The MA course was established in 1992, co-funded by the Royal College of Art and the Arts Council of Great Britain, and it was the first postgraduate programme in Britain to specialise in curatorial practice and the second programme in the world.

But much before that the rise of the curator started in the 1960 and as a result, I would say, our perceptions of exhibitions changed and the context of the artwork took a fundamental role. In this sense I believe the importance of studying curating is not at all unrelated from aspects of history and art criticism, we can think of the history of exhibitions, for example. Even more, it is a way to learn different exhibition formats, models of curating, the understanding of the connections between exhibitions and cultural production through the lens of curatorial practice, while at the same time considering their possible effects in the art historical and institutional fields. I can think for instance in what Boris Groys argues about Curating, when he says that the artwork needs external help, it needs an exhibition and a curator to become visible. The exhibition is the best light to make the artwork appears and so the curator plays a role that is fundamental to the origination and development of an exhibition, acting as intermediary between artwork and exhibition site, and thereby creating a dialogue with artists, connecting them to the structure of the exhibition, while at the same time helping to maintain their autonomy and identity.

Regarding the specific case of the RCA, the programme aims at providing a rigorous vocational and academic training in the curating of contemporary art in both the public and private spheres. Together with a wide-ranging consideration of recent curatorial practice in contemporary art the course includes critical theory, recent art history, history and theory of exhibition making, critical examination of curatorial practice, with special emphasis on the selection and presentation of exhibitions of contemporary art, the programming of public galleries and the commissioning of art for public spaces and a detailed understanding of how art institutions are structured and managed.

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Pamela Prado (p.3)

Compensação dos erros, 2007, Lais Myrrha, exposta em "Wonderland"

Compensação dos erros, 2007, Lais Myrrha, exposta em "Wonderland"

(continuação da entrevista iniciada aqui)

Como se deu o desenvolvimento da curadoria “Wonderland – ações e paradoxos” que você desenvolveu junto com o Rafael RG? Como vocês chegaram nessa proposta? Quais foram as maiores dificuldades? E facilidades? Como você avalia o resultado final ?

How was your involvement in the curatorship “Wonderland – actions and paradoxes” that you developed with Rafael RG? How did you get to this proposal? What were the most difficult aspects to carry on? What about the easiest ones? How do you evaluate the final result?

Então, junto com Rafael Rg, nós trabalhamos como curadores na exposição Wonderland: ações e paradoxos. Nós começamos a planejar um programa para o Paradas em Movimento, que foi dividido em 3 atos: ações, performance e engajamento social. Wonderland: ações e paradoxos é o primeiro ato.

Em Wonderland, o ponto de partida foi a questão sobre o sentido e o absurdo e sua conexão com o conceito de realidade. Nós assistimos o video de Francis Alÿs chamado Paradoxo da praxis 1 (1997). É um registro de uma ação que não produz um resultado definitivo, sob a frase “Sometimes making something leads to nothing” (Às vezes fazer alguma coisa não leva a nada). Alÿs empurra um bloco grande de gelo pelas ruas da cidade do México. A ação não tem um objetivo ou finalidade, então ela parece não ter nenhum sentido. Portanto, levamos em conta o livro “Lógica do sentido”(1969), de Giles Deleuze, e sua análise do “Alice no país das maravilhas” de Lewis Carroll, onde sua teoria do sentido é melhor descrita como uma série de paradoxos (em parte porque sentido é uma entidade que não existe, e, de fato, mantem relações especiais com o absurdo). Deleuze explica os dois (sentido e absurdo) usando a imagem da fita de Mobius, os duas formam as duas metades do ciclo de hermenêutica que joga na descoberta do sentido. Em “Alice no país das maravilhas”, nós podemos nos tornar conscientes de como ela sempre vai nessas duas direções ao memso tempo – sentido e absurso – ou que Wonderland (o páis das maravilhas) é sempre subdivido nessa direção dupla.

Portanto, em Wonderland: ações e paradoxos nós gostaríamos de apresentar ações que poderiam encapsular esse “nada” proposto por Alÿs, ou este duplo que lemos em Deleuze. Essas ações, contudo, na exposição vem a substituir o objeto artístico (a obra de arte) Essas ações não necessariamente tem um objetivo predeterminado, é possível dizer que falta um objeto ou um objetivo, e portanto eles levam ao nada, a lugar nenhum. Por esse motivo os trabalhos de vídeo apresentados na exposição oferecem uma série de paradoxos e contradições questionando qualquer interpretação lógica.

Quando as duas últimas perguntas sobre os aspectos mais difíceis e os mais fáceis, eu acredito que o mais difícil aspecto na realização da exposição foi o tempo, porque foi muito curto para desenvolver uma exposição. Mais eu acho que nos saímos bem e obtivemos resultados muito interessantes.  O aspecto mais fácil ou mais divertido foram as visitas aos ateliês dos artistas, galerias e ao arquivo do videobrasil. Foi maravilhoso trabalhar com esse grupo de artistas: Antti Laitinen, Adriana Aranha, Cinthia Marcelle, Kika Nicolela, Lais Myrrha, Laura Glusman, Marilá Dardot, Paola Junqueira, Renata Padovan e Rodrigo Castro.

So, together with Rafael Rg, we worked as curators to the exhibition Wonderland: actions and paradoxes. We started to plan a programme for Paradas em Movimento, which was divided in 3 acts: Actions, Performance and Social engagement. Wonderland: Actions and Paradoxes is the first act.

In Wonderland, the starting point was the question of sense and no-sense and its connection to the concept of reality. We looked at video work by Francis Alÿs titled Paradox of Praxis 1 (1997). It is a register of an action that doesn’t produce a definite result, under the phrase “Sometimes making something leads to nothing”; Alÿs pushes a large block of ice thought the streets of Mexico City. The action doesn’t have an objective or finality at all, so, the action seems to have no sense. Therefore, we took into account the book Logic of sense by Giles Deleuze, and his analysis of Lewis Carroll’s Alice in Wonderland, where his theory of sense is best described as ‘a series of paradoxes’ (partly because ’sense is a non existing entity, and, in fact, maintains very special relations with nonsense’). Deleuze explains the two (sense and nonsense, that is) using the image of Möbius strip; the two form the two halves of the hermeneutical cycle that plays in the figuring of sense. In Lewis Carroll’s Alice in Wonderland, we can become aware of how she always goes in these two directions at once –sense and nonsense-, or that Wonderland is always subdivided by this double direction.

And so, in Wonderland: actions and paradoxes we wanted to present actions that could encapsulated this “nothing” proposed by Alÿs, or this “double” we read in Deleuze. These actions, however, in the show come to replace the art object. These actions do not necessarily have a pre- established or predetermined aim, it is possible to say that they ‘lack’ an object or an objective, and therefore they lead to nowhere. For this reason the video works presented in the exhibition allow us to reflect about the notion of the sense in its relationship to the absurd. Through these videos the exhibition offers a series of paradoxes and contradictions questioning any logical interpretation.

Regarding the two last questions about the most difficult aspects and the easiest ones, I think that the most difficult aspect of this exhibition was time, because it was very short time to develop an exhibition.  But I think we did well and obtained very interesting results. The easiest or the funniest ones were the visits to artist’s studios, galleries and the video Brazil archive. It was wonderful to work with this great group of artists: Antti Laitinen, Adriana Aranha, Cinthia Marcelle, Kika Nicolela, Lais Myrrha, Laura Glusman, Marilá Dardot, Paola Junqueira, Renata Padovan e Rodrigo Castro.

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Pamela Prado (p.2)

(continuação da entrevista iniciada aqui)

Após a sua chegada, o que te chamou mais atenção no CCSP? Quais foram seus métodos ou estratégias para você conhecer e se aproximar da instituição?

Quem foram as pessoas que te receberam no CCSP? Você circulou por outras curadorias (teatro, dança, musica)?

What were the things that most called your attention in CCSP? What were your methods or strategies to get to know and get closer to the institution?

Who guided you around in CCSP? Did you talk with different curators (from other areas such as theater, dance, music)?

No meu primeiro dia o Fernando Oliva, diretor da Divisão de Curadoria e Programação, me guiou pelo prédio do CCSP. Naquela ocasião, eu tive o prazer de conhecer algumas pessoas interessantes do GRiD, você e o Roberto Winter. O Fernando me mostrou a biblioteca, os teatros, salas de cinema, galerias e auditórios. Ele me explicou os diferentes projetos que estavam acontecendo e os que estavam prestes a acontecer (os quais eu poderia me envolver). Eu também conheci Martin Grossman, diretor do CCSP, nós conversamos sobre a organização e estrutura do Centro. Quando Martin se tornou diretor, os conceitos de programação, curadoria, e multidisciplinaridade eram principios que ele gostaria de introduzir. Ele descreve a curadoria como um jeito de pensar por meio da criação de projetos e contextos a fim de mostrar manifestações artísticas (como artes visuais, teatro, dança, cinema e música) construindo um diálogo entre o CCSP e o público. Ele organizou um time de 5 curadores representando cada disciplina liderada por um Diretor de Curadoria e Programação.

Eu trabalhei em 3 projetos no Centro Cultural São Paulo. O primeiro é um projeto de investigação ainda em curso sobre residências de artistas com o objetivo de abrir uma residência para artistas internacionais em São Paulo. Eu visitei várias residências de artistas em São Paulo. Eu estava interessada em conversar com artistas e diretores sobre as condições desses programas. Durante essa pesquisa muitas questões emergiram, em particular, qual o papel que essas residências teriam dentro do discurso da arte e como podem ajudar a produção de arte. Palavras chaves como: intercâmbio de ideias, experiência, networking e laboratório apareceram sempre como parte do discurso dessas residências visitadas.

O segundo projeto é uma exposição aberta no dia 6 de fevereiro chamada Wonderland: ações e paradoxos.

Finalmente, o terceiro projeto foi uma pesquisa sobre projetos multidisciplinares, e para isso eu conversei com alguns curadores de diferentes disciplinas no CCSP.

On my first day I was guided though the Centro Cultural Sao Paulo’s building by Fernando Oliva, Director of Curating and Programming, in that opportunity I had the pleasure to meet some interesting people from GRID, Luiza Proenca and Roberto Winter. Fernando showed me the library, the film theatres, galleries and auditoriums. He explained to me the different projects that were currently on and the ones that were about to happen (where I could get involved).  I also met Martin Grossman, Director of the CCSP; we talked about the organization and structure of the Center. When Martin became the Director, concepts of programming, curating, and multidisciplinary were principles he wanted to introduce. He describes curating as a way of thinking through the creation of projects and contexts in order to show artistic manifestations (such visual arts, theatre, dance, film and music) building a dialogue between the Center and the public. He organized a team of 5 curators representing each discipline leaded by a Director of Curating and Programming.

I worked in three projects at the Centro Cultural Sao Paulo in Brazil. The first one is an ongoing research project about artist residencies with the aim at opening an international artist residency in Sao Paulo (Brazil). I visited various artist residencies in Sao Paulo. I was interested in talking to artists and directors regarding the conditions of these programmes.  During this research many questions emerged, in particular, what role these residencies would have within the art discourse and how it helps art production. Key words like: exchange of ideas, experience, networking and laboratory were always part of the discourse of these residencies.

The second project at the Centro Cultural Sao Paulo is an exhibition opened on the 6th February 2010 untitled: Wonderland: actions and paradoxes.

Finally, the third project was a research on multidisciplinary projects, for this I talked to some curators of different disciplines at the CCSP.

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Pamela Prado

Pamela Prado na exposição "Wonderland" no CCSP

Pamela Prado é uma curadora recentemente formada pelo Royal College of Art, em Londres. Entre novembro e dezembro de 2009, ela esteve em São Paulo para realizar um estágio no Centro Cultural São Paulo. Na entrevista a seguir Pamela nos conta como foi sua formação, sua passagem por São Paulo e sobre o contato e desenvolvimento de projetos no CCSP. Como a entrevista é longa (e bilíngue!), cada dia dessa semana será publicada uma parte dela.

*

Queria que você contasse como você chegou ao CCSP, se fazer o contato com a instituição foi fácil, e se você teve apoio durante a sua estadia de 5 semanas em São Paulo.

I would you like you to tell us how you ended up in CCSP. Was contacting the institution easy? What kind of support did you have during your 5 week stay in Sao Paulo?

Eu procurava por possíveis hospedeiros para o meu estágio de pós-graduação, que foi patrocinado pelo departamento de curadoria do Royal College, em Londres. Eu sempre me interessei pela cena da arte contemporânea brasileira. Quando eu estava em Londres eu tive a oportunidade de conhecer curadores como Guy Brett, Moacir dos Anjos, Isobel Whitelegg, Tanya Barson entre outros, todos eles interessados na cena da arte contemporânea no Brasil. Eu estava muito interessada em fazer alguma pesquisa sobre a arte contemporânea brasileira e em trabalhar no país. Eu descobri o Centro Cultural São Paulo e eu fiquei interessada por sua abordagem multidisciplinar e pela sua excepcional localização na cidade de São Paulo. Eu entrei em contato com o diretor do CCSP, Martin Grossman, e mencionei meu interesse. Ele ficou muito entusiasmado pela minha experiência e estudos em curadoria de arte contemporânea e também na possibilidade que, estando em São Paulo, eu poderia ajudar a criar links entre o CCSP e o Royal College of Art. Foi uma experiência muito importante para mim, e um jeito de conhecer melhor o contexto de arte em São Paulo.

I was looking for possible hosts for my post-graduation internship, which was sponsored by the Royal College of Art’s Curating Department. I have been always interested in Brazil’s contemporary art scene. When I was in London I had the opportunity to meet curators like Guy Brett, Moacir dos Anjos, Isobel Whitelegg, Tanya Barson amongst others, all of them interested in contemporary art scene in Brazil. I was very keen in doing some research on contemporary art in Brazil and to work there. I found out about the Centro Cultural Sao Paulo and I became interested because its multidisciplinary approach to arts and exceptional location in the city of Sao Paulo. I contacted the Director of the CCSP, Martin Grossman, and mentioned my interest. Martin was very interested in my experience and studies in curating contemporary art and also in the possibility that by staying in Sao Paulo I would help to create links between the CCSP and the Royal College of Art. It was a very important experience to me, and a way to get to know better the art scene in Sao Paulo.

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O que seria interdisciplinar nas artes?

imagem do espetáculo Zona de Risco

Se tornou freqüente a busca por um desenvolvimento de atividades com um intuito interdisciplinar em instituições culturais, como é o caso do Centro Cultural São Paulo com o projeto “experimental” Zona de Risco[1], que aconteceu durante o segundo semestre de 2009. Tais atividades surgem a partir de uma configuração interna da instituição, que gera uma demanda de produção artística. O que muitas vezes acontece é que o “interdisciplinar” em tais atividades se refere ao encontro de disciplinas da própria arte, ou seja, atividades que envolvem teatro, artes visuais, música, dança, cinema, arquitetura, etc. O que isso pode resultar? O que seria interdisciplinar nas artes?

Larry Shiner nos explica que “nem Platão nem Aristóteles – nem a sociedade grega em geral – tratou pintura, escultura, arquitetura, poesia, e música como pertencendo a uma categoria isolada distinta[2].” O autor defende que foi no século XVIII que ocorreu uma grande divisão das artes que conhecemos hoje,  gerando a nova categoria de “belas artes” (poesia, pintura, escultura, arquitetura, música), por oposição aos ofícios e artes populares (calçado, bordados, histórias, canções populares, etc.)”[3], e também às ciências e humanidades. Com essa divisão houve também a substituição de todo um sistema de conceitos, práticas e instituições para um outro, e aí surgiram os museus e a sala de concerto – espaços especiais para a apreensão de algo também desenvolvido nesse novo sistema: a estética.

Sabe-se que ao menos desde 1960 formas de resistência àquela divisão tornaram-se freqüentes, e os limites entre as práticas artísticas tornaram-se imprecisos. Porém, como explica Brian Holmes, “nas formas artísticas resultantes, sempre se encontrarão sobras do velho tropismo modernista, por meio do qual a arte, antes de tudo, designa a si mesma (…)” [4].  Para Holmes, “a palavra tropismo transporta o desejo ou necessidade de virar-se rumo a algo além, a um campo ou disciplina exterior, enquanto a noção de auto-reflexividade indica um retorno crítico ao ponto de partida, uma tentativa de transformar a disciplina inicial, de acabar com sua isolação, de abrir-se a novas possibilidades de expressão, análise, cooperação e compromisso”[5]. Holmes chama esse movimento de investigações “extradisciplinares”, como alternativa ao banalizado termo “interdisciplinaridade”, e o relaciona com o desenvolvimento do que era chamado de crítica institucional.

Mas talvez seja importante aqui fazer uma pausa para explicar brevemente algumas diferenças existentes entre interdisciplinaridade, multidisciplinaridade (ou pluridisciplinaridade), e transdisciplinaridade, que é a terminologia mais utilizada no âmbito acadêmico. A tendência mais adotada é a diferenciação por meio dos modos de coordenação e cooperação entre as disciplinas. Assim, a multi ou pluridisciplinaridade se configura como “uma justaposição de conteúdos de disciplinas heterogêneas ou a integração de conteúdos numa mesma disciplina”[6] sem que métodos e teorias sejam alterados. A interdisciplinaridade propõe uma relação de mutualidade ou interação, estabelecendo intersubjetividades e intercâmbio entre conceitos e métodos. Por sua vez, a transdisciplinaridade seria o nível mais alto das relações iniciadas nos níveis anteriores, pois define e resolve problemas independentemente de disciplinas específicas, e assim transformando disciplinas ao remover os seus limites. Se a multi ou pluri disciplinaridade é muito superficial no contato entre as disciplinas, a transdisciplinaridade é demasiadamente utópica. Portanto, entre os dois níveis, a interdisciplinaridade se tornou o termo mais popular e defendido nos discursos acadêmicos e institucionais.

Se seguirmos a definição acima, fica evidente para quem acompanhou as apresentações abertas do projeto Zona de Risco que ele resultou principalmente em uma experiência multidisciplinar entre as artes: bailarinos dançaram textos interpretados por atores que atuaram com a musicalidade criada pelo grupo de músicos, tudo em um cenário que era elaborado pelos artistas visuais. Como o próprio blog do projeto descreve, tratou-se de um processo de “colagem” e “justaposição”. É claro que existiram conflitos e momentos de “fusão”, mas parece que para ser interdisciplinar seria necessário algo mais do que simplesmente o desejo de ser interdisciplinar (a celebração da interdisciplinaridade) ou “híbrido”, outro termo utilizado ao longo do desenvolvimento do Zona de Risco.

Ao analisarmos algumas manifestações interdisciplinares antecedentes entre artistas, como o movimento surrealista ou os conceitualistas do leste europeu, é notável que a ideologia, um programa estético comum, ou uma certa atitude política, era mais importante do que o rompimento entre as bordas entre poetas, artistas, filósofos, escritores e cineastas[7]. Vale lembrar também que no clássico Gesamtkunstwerk de Richard Wagner havia um projeto estético e político bem claro.

Não interessa aqui discutir ou julgar as qualidades dos projetos estéticos, políticos e/ou ideológicos dos exemplos acima, mas apontar que a falta de um projeto coletivo crítico comum (que é diferente da escolha de um “tema” comum, como “fronteira” foi em determinado momento para o Zona de Risco), decorrente do encontro gerido institucionalmente dos grupos participantes do Zona de Risco, acabou por reforçar uma idéia romântica de autonomia da arte, o que não parece ser o objetivo dos grupos quando trabalham isolados.

É evidente que existe uma dificuldade que se relaciona com o que é conhecido na produção contemporânea como “institucionalização da critica” e como “trabalho de arte encomendado” que problematiza a ação do artista dentro da instituição e é capaz de impossibilitar qualquer trabalho crítico. Mas voltando ao que Brian Holmes denomina de “investigações extradisciplinares”,  existe uma nova geração de artistas que sobrevivem a isso. Os projetos de tais artistas, geralmente coletivos, “são baseados em uma circulação de disciplinas, freqüentemente envolvendo a reserva crítica real de posições marginais ou contraculturais (…) que não podem ser reduzidas a uma instituição que tudo abarca. (…) É o compromisso político, em quase todos os casos, que lhes dá o desejo de perseguir suas investigações exigentes para além dos limites de uma disciplina artística ou acadêmica.”[8].  Quer seja inter ou extra disciplinar, parece que é a instituição que agora tem que compreender melhor qual seria o seu papel nesse processo. No Brasil as coisas caminham mais devagar e ainda precisamos entender a troca entre as disciplinas não só da própria arte, mas sim da arte com campos diversos, sendo críticos ao pensamento que se desenvolveu no século XVIII.

(imagem do projeto Zona de Risco)


[1] De acordo com o folder de divulgação do projeto, o Zona de Risco se configurou como um “laboratório interdisciplinar de criação e apresentação de manifestações artísticas inéditas”.  Quatro grupos heterogêneos, o coletivo BijaRi (artes visuais), a Cia. Maurício de Oliveira e Siameses (dança), o duo Müvi (música) e a Cia. Phila 7 (teatro) foram convidados para desenvolverem  “formas de interação, interseccção ou diálogos artísticos” no Espaço Cênico Ademar Guerra do Centro Cultural São Paulo., no segundo semestre de 2009. Aos sábados, em apresentações chamadas “Zonas Abertas”, os participantes deveriam apresentar ao público o processo de desenvolvimento.

[2] SHINER, Larry. The Invention of Art: A Cultural History. Chicago: University of Chicago Press, 2003. p.20

[3] (idem) p.5

[4] HOLMES, Brian. Investigações extradisciplinares: para uma nova crítica das instituições. Concinnitas, Revista do Instituto de Artes da Uerj, Rio de Janeiro, ano 9, n. 12, jul. 2008. p.7.

[5] (idem) p.8

[6] FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade – Um Projeto Em Parceria. São Paulo, SP: Loyola, 2002. (1991). V. 13 Coleção Educar. p. 31.

[7] GROYS, Boris. VIDOKLE, Anton. Art beyond the art market. Notes for an art school. p.4. Disponível em: http://www.manifesta.org/manifesta6/index.htm

[8] HOLMES, 2008, p.12.

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Conversa com o educativo

No final de 2009 a Ação Cultural e Educativa do Centro Cultural São Paulo realizou uma primeira publicação, denominada “Desenrolando o Centro Cultural São Paulo”, dedicada ao público infanto-juvenil que vem visitar o CCSP pela primeira vez. A Ação conta com outros diversos recursos gratuitos para aproximar o público das múltiplas linguagens que fazem parte da programação da instituição.

A conversa a seguir foi feita com a coordenadora do grupo de mediação do CCSP Patrícia Marchesoni pouco antes da criação do GRiD, em julho de 2009, com o interesse em saber como educativos de diversas instituições lidavam com arte contemporânea. Ainda sem conhecer ou ter acompanhado uma visita da Ação Educativa alguma vez, a conversa se desenrolou a partir de uma espécie de questionário semi-estruturado. Com o início das atividades do GRiD, reconhecemos a importância do papel da Ação Educativa do CCSP ao transitar entre as divisões, setores, ou curadorias, do Centro Cultural, e por isso resolvemos, após uma reedição, publicar a conversa aqui.

Capa da publicação "Desenrolando o Centro Cultural São Paulo"

Capa da publicação "Desenrolando o Centro Cultural São Paulo"

Luiza Proença: Desde quando existe o educativo no Centro Cultural São Paulo?

Patrícia Marchesoni: Houve uma mudança bem importante no educativo do Centro Cultural. A divisão como ela é agora, a DACE – Divisão de Ação Cultural Educativa - foi criada em 2007, porque até então havia um núcleo que era um braço da curadoria das artes plásticas, o NAE (Núcleo de Ação Educativa) e também um outro núcleo, o Atelier, responsável pelos cursos e oficinas.

Ou seja, em 2007 houve a junção desses dois núcleos e foi criada a Divisão de Ação Cultural Educativa. Um dos fatores mais importantes disso é que foi dado um maior status a essa divisão, já que antes estes dois núcleos estavam submetidos à outra curadoria. Ao passar a ser uma divisão a partir de 2007, ela fica no mesmo patamar das outras curadorias, de artes plásticas, de música, etc, ganha um status de curadoria. Assim, a missão ficou diferente porque passou a ter um caráter mais propositivo, passou a ter mais liberdade de ação e proposição.

Dentro da DACE, houve uma divisão de tarefas e de responsabilidades. Hoje existem dois grandes grupos dentro dessa divisão: o grupo de cursos e oficinas, que a coordenação é da Débora [Bolsoni] e o grupo de mediação, o qual eu sou coordenadora.

Roberto Winter: O NAE era a única coisa que existiu antes?

Patrícia: Isso.

Roberto: E ele surgiu em um determinado momento?

Patrícia: Ele surgiu a partir da curadoria de artes plásticas, principalmente para fazer as visitas às exposições.

Roberto: E para outras áreas como teatro e dança não tinha nada equivalente que depois foi incorporado?

Patrícia: Não…

Luiza: Qual é o papel que o educativo tenta cumprir hoje dentro do CCSP?

Patrícia: Tentamos cumprir esse papel propositivo. Acho que ainda é uma coisa mais ou menos nova aqui dentro, e acho até que muita gente daqui ainda está se acostumando com esse novo papel dessa Divisão. Então trabalhamos constantemente também para as pessoas entenderem o que a gente faz aqui. Por exemplo, uma coisa que a gente sempre tem que bater na mesma tecla é que existe ainda aqui dentro mesmo uma idéia de que a gente faz visita monitorada. É um trabalho a longo prazo, de conversar e explicar para pessoas de diversas divisões que a gente não faz visita monitorada, que a gente faz mediação, e quais são as diferenças entre um e outro. Mas é uma coisa que nós estamos fazendo já há algum tempo e ainda tem muita gente que não entende o que é mediação. Até usam essa nomenclatura, “monitoria”, para falar dos serviços que a gente oferece.

Folder

Folder do Acervo do Centro Cultural São Paulo exposto na ocasião do aniversário de 25 anos do CCSP. Hoje a Ação Educativa defende o uso de "visitas mediadas" em lugar de "monitoradas".

Luiza: E como vocês entendem a mediação?

Patrícia: Não queremos o uso da palavra monitoria, de algo guiado, de uma pessoa ser detentora do conhecimento, das informações, e passar informação enquanto o público recebe essa informação passivamente. O trabalho que fazemos na mediação aqui é muito pautado na questão da experiência, na construção de conhecimento e no coletivo. Tentamos fazer atividades para criar vínculos com instituições, atividades práticas, ou em forma de discussão, mas algo construído, e não uma coisa dada por um e recebida por outro.

E o trabalho de mediação aqui também não é só em relação às exposições, porque como estamos em um Centro Cultural, tentamos abarcar toda essa multiplicidade de linguagens que temos. Trabalhamos com oito roteiros [hoje já são 10]. Um deles é então “Aproximação com arte contemporânea”, que é o que trabalhamos nas exposições, principalmente nas mostras. Mas temos roteiros de aproximação com a linguagem do teatro, com a linguagem de histórias em quadrinhos, por causa da Gibiteca; temos um roteiro chamado “Laboratório sensorial”, pensado a partir da Biblioteca Braille, um roteiro no qual aproximamos esse equipamento cultural através de outros sentidos que não a visão terminando na Biblioteca Braille. Tudo isso tendo como objetivo a questão da experiência. Entre outros, existe um roteiro sobre arquitetura, tem um roteiro que é “Descobrindo o Centro Cultural São Paulo”, onde damos um panorama sobre tudo o que o CCSP oferece.

E também tem uma característica muito importante que trabalhamos durante a mediação que são as especificidades desse lugar, principalmente por ser um lugar público. É uma característica importante que incorporamos nas visitas, discutindo com os grupos o que é o espaço público, cidadania, coletividade, etc. Então procuramos sempre pensar nesse lugar, a mediação a partir desse lugar específico que é o CCSP, que é um lugar público, da Prefeitura de São Paulo.

Luiza: E quem usa esses roteiros? Público escolar e/ou espontâneo?

Patrícia: Atendemos qualquer tipo de público, jovens, adolescentes, adultos,  e oferecemos também visitas espontâneas, só que não tem muita demanda, então oferecemos somente duas vezes por mês. Estamos tentando fazer algumas ações, divulgando mais, para ver se aumenta essa demanda de público espontâneo.

Nossa maior demanda é de escolas, escolas públicas, e principalmente da prefeitura (municipais). Acredito que isso tem a ver com a nossa vocação também por ser um centro cultural da prefeitura. Entre crianças e adolescentes, vêm principalmente crianças.

Luiza: Essas escolas pedem pelos roteiros? Podem escolher?

Patrícia: Podem. Oferecemos os roteiros e as escolas tem a liberdade de escolher o que quiserem

Luiza: E não existe educador disposto no espaço expositivo, para receber o público espontâneo?

Patrícia: Não. Mas depende da exposição. Algumas exposições que vem de fora que eles colocam no orçamento para contratar pessoas para ficarem no espaço expositivo, mas geralmente não.

Tem uma coisa importante que eu estava esquecendo que é a “Mesa Diz-tudo”, que supre parte dessa necessidade. É uma mesa educativa que colocamos no espaço expositivo em determinados horários e que tem livros, portfólios e outros materiais relacionados às exposições em cartaz e um mediador da nossa equipe fica à disposição por duas horas. Ou seja, é uma mesa para quem quiser se aprofundar sobre um assunto ou quiser conversar ou consultar os livros.

"Monitoria"

O "monitor" Maurício Faria Ramos durante visita ao Centro Cultural São Paulo em 1997. Foto Sosô Parma.

Roberto: Existe algum roteiro mais pedido?

Patrícia: Um dos roteiros mais pedidos é o da Gibiteca.

Luiza: E como funciona esse roteiro?

Patrícia:  Em todos os roteiros, o que a propomos é uma aproximação com a linguagem. Então o roteiro acontece na própria Gibiteca onde os visitantes têm contato com os gibis, aí vamos construindo o que é essa linguagem,  quais são as peculiaridades, e sempre tem uma atividade prática de fazer uma construção de uma história em quadrinhos e para isso temos várias opções. Outra coisa importante também é o coletivo. Nas atividades sempre privilegiamos o coletivo, até mesmo por estarmos no espaço público, de uso coletivo. Por exemplo, nessa atividade da Gibiteca propomos uma construção coletiva de uma tirinha de quadrinhos, então se formam alguns grupos, um grupo faz o cenário, um outro o personagem, o outro a história, e depois eles trocam.

Roberto: Como foi a elaboração desses roteiros? Vocês pensaram nele e vocês vão aplicando e adaptando?

Patrícia:  Isso. Fazemos uma coisa sempre experimental. Pensamos no que queremos, aí colocamos em prática, e vemos o que deu certo o que não deu. E a gente sempre muda.

Roberto: Você disse que são oito roteiros. Esse número cresceu?

Patrícia:  Sim, cresceu. E a gente quer aumentar, por exemplo a gente quer fazer um roteiro de cinema (“Introdução à Linguagem Cinematográfica” e mais um, “Música de Movimento”). A ideia é aumentar para abarcar todas as linguagens que a gente tem aqui.

Roberto: E no caso de uma visita espontânea, os roteiros são oferecidos?

Patrícia:  Checamos com o grupo. Tentamos privilegiar as exposições e geralmente damos duas opções: “Descobrindo o Centro Cultural” ou “Aproximação com arte contemporânea”. Ou também se o grupo quiser alguma outra coisa, fazemos, pois outra coisa que consideramos importante é a questão da autonomia e a liberdade de escolha.

Luiza: É interessante como o educativo circula por diversas linguagens por meio dos roteiros. Existe algum roteiro que faz pontes entre linguagens em uma visita? O roteiro “Descobrindo o Centro Cultural” cumpre esse papel?

Patrícia: Sim, principalmente esse, mas também os roteiros: Arquitetura, Laboratório Sensorial, Viagem Espacial, Música e Movimento.

Durante uma visita por meio do roteiro "Viagem espacial", uma versão mais lúdica do roteiro "Descobrindo o Centro Cultural São Paulo". Foto: Patrícia Marchesoni e Carlos Rennó

Luiza: E os mediadores que conduzem as visitas são estudantes somente das áreas de artes?

Patrícia: São da área de humanas. É sempre interessante ter de artes, é claro, pelo repertório, mas  temos estudantes de história, filosofia, teatro, já teve de arquitetura, talvez em breve teremos um de letras …

Roberto: E como é isso para vocês de eles serem estagiários? Tem vantagens e desvantagens?

Patrícia: A desvantagem é que eles não podem ficar mais de dois anos e fazer um trabalho a longo prazo. Agora a vantagem, que eu particularmente acho interessante, é ter gente que não tem experiência. Porque como fazemos um trabalho experimental e estamos tentando fazer algo novo, eles vêm sem preconceitos de experimentar ou vícios. Porque às vezes uma pessoa que já tem experiência tende a fazer uma coisa do jeito que já fazia antes. Eu acho que o lado positivo disso é a abertura para coisas novas. O que eles têm em comum é que são pessoas interessadas em mediação, que pesquisam, o que é uma grande vantagem.

Luiza: Como é a formação dos estagiários?

Patrícia: A maioria costuma ficar os dois anos de estágio. Todos os que entram, têm um período de um mês para treinamento para conhecer o espaço e se familiarizar, porque tem muito conteúdo para ser estudado principalmente sobre o CCSP, sobre a história do prédio, o projeto, etc. Usamos textos que são a base do nosso conceito e eles ficam durante esse mês observando as visitas dos outros mediadores.

Luiza: Quais são esses textos?

Patrícia: Tem vários , mas os principais são: “Notas sobre a experiência e o saber da experiência” de Jorge Larrosa Bondia, “Between Education and Participation” de Pierangelo Maset e “Pedagogia da Autonomia” de Paulo Freire.

Mediação e arte contemporânea

Luiza: Como funciona o roteiro “Aproximação com arte contemporânea”?

Patrícia: Acontecem nas exposições, e existem alguns recursos que usamos quase, mas obviamente muda muito de acordo com a mostra. A cada exposição pensamos em outras estratégias partindo do conteúdo. Algumas destas atividades fazemos sempre, como por exemplo, as “palavras chaves”, que são alguns chaveirinhos que temos aqui com várias palavras. É uma maneira de aproximar o visitante às obras, porque existe uma grande dificuldade em falar sobre arte, em discutir, que vem de uma idéia de que não são capazes de entender. Então usamos esse tipo de recurso para quebrar o gelo e criar uma maneira de aproximação com o público, partir daí gerar uma discussão e desenvolver a autonomia no visitante, mostrar que ele é capaz de fazer essa aproximação mesmo sem repertório prévio.

Um outro recurso usamos principalmente com criança pequena, que é invenção da Ana Teixeira, é uma máquina fotográfica mental feita com disquetes velhos de computador. Isso é uma coisa super simples, tem que o público tira foto de alguma coisa com o disquete e a foto é mental, vai para mente e depois dá para discutir também do que eles tiraram foto.

Disquete como câmera fotográfica

Mediadora utiliza um disquete como se fosse uma câmera fotográfica. Foto: Flávia Giacomini Costa.

Roberto: E como é a relação com a curadoria? Vocês participam, por exemplo, da seleção anual de jovens artistas para o Programa de Exposições?

Patrícia: Não. Não participamos da seleção. O Guilherme [Teixeira, coordenador da Ação Cultural e Educativa] participa de muitas coisas que acontecem com a equipe de curadoria. Por exemplo, existem os artistas que são convidados todo o anos, e o Guilherme tem a liberdade de sugerir nomes. Então tem essa participação, mas não na seleção. Em geral somos bem envolvidos com curadoria de artes plásticas.

Luiza: Você acha que seria interessante para o educativo participar disso?

Roberto: E participar pode significar também acompanhar, não necessariamente fazer a seleção…

Patrícia: Seria super interessante, saber os critérios de seleção. Uma outra coisa também, que foi recentemente aprovada pela curadoria de artes plásticas, é que o educativo tenha um espaço nos folders da mostra. Então teremos um espaço com perguntas provocativas, com certeza no ano que vem já teremos isso.//

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O Gesamtkunstwerk de Harald Szeemann

Reconstruction of the Merzbau

Richard Wagner explicitamente formulou a idéia de Gesamtkunstwerk no ensaio A obra de arte do futuro, em meados do século 19, embora ela já tivesse seus fundamentos teóricos nos princípios do romantismo e no idealismo alemão. Gabriele Bryant [1] relata que naquilo que foi chamado de “revolução estética”, termo elaborado por Friedrich Schlegel, “a arte não mais imita sua história e contexto social, mas preferivelmente, a sociedade deveria seguir os ideais e regras enunciados pela arte”. A autora procura entender a atualidade do uso do ambíguo termo Gesamtkunstwerk, visto por alguns como um “precursor da redenção” e por outros como um “perigoso travesti”. Ela explica que no surgimento do termo as artes ainda não haviam sido separadas em domínios autônomos; já as práticas dos dois séculos seguintes aparecem como a tentativa retrospectiva de reunir as artes novamente e, mais que isso, procuram a transcendência da obra de arte como tal, levando à transformação estética da sociedade, como resposta para a crise social, ao desespero cultural e a experiência da alienação pela modernidade. Bryant utiliza o edifício Hoechst, em Frankfurt, projetado pelo arquiteto Peter Behrens em 1924 como exemplo recente.

Antes das reflexões de Bryant, em 1983, o curador suiço Harald Szeemann já havia tomado uma iniciativa de investigar o tema por meio da realização da mostra Der Hang zum Gesamtkunstwerk: Europäische Utopian seit 1800 (A tendência da Arte total: Utopias européias desde 1800), na Kunsthaus Zürich. O título, segundo Bryant, só poderia ser “Der Hang” (a tendência, inclinação, ou desejo em direção ao Gesamtkunstwerk) pois Gesamtkunstwerk (ou trabalho de arte total) realmente não existe, ele só pode existir na nossa imaginação.

Em uma entrevista concedida ao curador Hans  Ulrich Obrist [2], Szeemann relata que a exposição partia de artistas do romantismo alemão (como Phillipe Otto Runge) e arquitetos da revolução francesa. Havia um espaço para gestos artísticos primários do século XX, no qual se encontrava obras do Kandinsky de 1911, o “Grande vidro” de Duchamp, um Mondrian, e Malevitch. A exposição terminava com o artista Joseph Beuys como representante da última revolução nas artes visuais. Outros participantes da mostra eram: trabalhos e documentos de Richard Wagner e Ludwig II; Rudolf Steiner; Facteur Cheval e Tatlin; Hugo Ball e Johannes Baader; o “Triadisches ballett” de 1927 de Shlemmer e a “Cathedral of erotic misery” de Schwitters; o manifesto da Bauhaus; Antonio Gaudí e o movimento “Glass Chain”; Antonin Artaud; Adolf Wölfli, e Gabriele D’annuzio; e no cinema Abel Gance e Hans-Juger Syberberg. A Merzbau de Schwitters foi reconstruída, pela primeira vez, por Peter Bissegger para a ocasião da exposição (foto acima).

A mostra, como é possível notar acima, não se limitava a somente pinturas e esculturas, mas também maquetes, objetos do cotidiano, documentos, reconstruções de obras, miniaturas, etc. Assim como nas exposições anteriores The Bachelor Machines (1975) e Monte Verita (1978), em Der Hang zum Gesamtkunstwerk Szeemann buscou desenvolver uma história das utopias, e também acabou por realizar uma história dos mitos e valores europeus[3].

Notas e bibliografia

[1] Brylant, Gabriele. “Timely untimeliness: Architectural modernism and the idea of Gesamtkunstwerk”. In: Mari Hvattum and Christian Hermansen (eds), Tracing modernity: manifestations of the modern in architecture and the city. London: Routledge 2004. pg. 156 a 168

[2] Hans Ulrich Obrist (ed.). A Brief History of Curating. Zürich: JRP-Ringier, 2009. pg.93.

[3] Poinsot, Jean-Marc. Large exhibitions: a sketch of typology. In: Reesa Greenberg , Bruce W. Ferguson, and Sandy Nairne (ed). Thinking about exhibitions. Routledge, 1996.

[] Derleux, Florence (ed.). Harald Szeemann Individual Methodology. Zürich: JRP-Ringier, 2008.

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