As questões terminológicas são importantes na filosofia. Como disse uma vez um filósofo pelo qual tenho o maior respeito, a terminologia é o momento poético do pensamento (AGAMBEN, Giorgio O que é contemporâneo? 2009, p. 27).
(…) um nome pode parecer uma coisa simples – a ligação entre som e sentido que é compartilhada por uma comunidade. Mas, quanto mais nos concentramos no funcionamento dos nomes, mais cresce a esfera de experiência humana que se descortina diante de nós (PINKER, Steve Do que é feito o pensamento. 2008, p. 367).
O ato de nomear, que depende da eficiência do ato de classificar, nos treina a condicionar a comunicação ao seu exercício (KATZ & GREINER, Por uma teoria do corpomídia. 2008, p. 125).
Os nomes já vêm com unha? (BARROS, Manoel de. Livro das Ignoraçãs. 1993)
(…) como seria se a palavra tivesse o poder de substituir fisicamente aquilo a que se refere? Isso trava o aspecto aéreo, gasoso, das palavras, que passam a querer carregar peso, corpo, suor (RAMOS, Nuno, MAIS in Folha de SP. 2009, p. 5)
Não há conceito simples. Todo conceito tem componentes e se define por ele. Tem portanto uma cifra (…). Todo conceito é ao menos duplo, ou triplo, etc (…). Todo conceito tem um contorno irregular, definido pela cifra de seus componentes. É por isso que, de Platão a Bergson, encontramos a ideia de que o conceito é questão de articulação, corte e sobreposição. É um todo fragmentário. (…)
Numa palavra, dizemos de qualquer conceito que ele sempre tem uma história, embora a história se desdobre em ziguezague, embora cruze talvez outros problemas ou outros planos diferentes. Num conceito, há, no mais das vezes, pedaços ou componentes vindos de outros conceitos, que respondiam a outros problemas e supunham outros planos. Não pode ser diferente, já que cada conceito opera um novo corte, assume novos contornos, deve ser reativado ou recortado (DELEUZE & GUATTARRI. O que é Filosofia? 1992, 27 -30)
Nenhuma citação acima está aqui para defender a ideia de que todas as palavras mereçam livros inteiros para serem compreendidas. Mas não podemos nos esquecer de que a terminologia é um aspecto importante na filosofia, na arte e na comunicação humana, principalmente.
Nenhum dos conceitos tratados pelos filósofos, neurocientistas, artistas e poetas reunidos acima foram resumidos numa sentença. Criaram-se livros inteiros destinados ao entendimento de uma ou duas palavras. Talvez, seja realmente trabalhoso tentar entender a diferença entre conceitos que queiram se afastar do seu mal ‘emprego’ cotidiano. Objetos e fenômenos distintos na maioria das vezes merecem e devem receber nomes distintos, mesmo havendo semelhanças ontológicas entre si.
Por exemplo: existem vários tipos de copos, uns são utilizados para tomar vinho e outros para cachaça e assim por diante, todos os copos poderiam ser utilizados para o mesmo fim. No entanto como se referir aos diferentes tipos de copos e especificá-los utilizando apenas recursos linguisticos? Daí a solução, distinguí-los na língua, por isso para cada copo existe o seu desígnio específico.
No exemplo do copo talvez a diferença pareça simples demais, e poderíamos até dizer que, no fundo, qualquer copo pode ser utilizado para a mesma coisa, desde que se sirva para tomar água quando se está com sede. Mesmo que certos tipos de copos sejam mais eficientes que outros no quesito ‘matar a sede’.
No entanto, quando se trata dos fenômenos científicos ou até mesmo artísticos. Como distinguí-los, se todos são fenômenos?
Steve Pinker em seu livro ‘Do que é feito o pensamento’ faz uma grande lista de nomes interessantes (infelizmente, todos em inglês, às vezes sem um correspondente direto em português) que talvez nunca, ou jamais serão utilizados no nosso dia-a-dia. com esta atitude Pinker nos faz perceber uma característica curiosa da língua: o tempo todo surgem palavras novas sem que a gente se dê conta disso e isto caracteriza uma língua viva. Uma língua que acompanha um fluxo inestancável, no tempo e no espaço. Uma língua viva é mutável, o oposto da visão determinista. Ou seja, nenhum conceito pode ser simplesmente resumido em caracteres lógicos, como uma fórmula matemática, ou numa definição devidamente dicionarizada.
A comunicação aceita usos diversos e novos encaixes de prefixos, sufixos e afins, a todo momento. As crianças inventam quando combinam palavras que dominam para descrever situações que não conhecem, criando às vezes usos inesperados.
As palavras se modificam e aquelas que sobrevivem; sobrevivem, justamente, porque se propagam pelo maior número de corpos. Outras se tornam tão indispensáveis para a descrição de uma realidade que teóricos e filósofos elaboram hipóteses e teses acerca destas palavras. E é mais ou menos assim que algumas palavras fracassam e outras obtêm sucesso, ou melhor, é mais ou menos assim, que algumas palavras permanecem e outras, simplesmente, são esquecidas. As palavras que permanecem, provavelmente, permanecem porquê nos ajudam a descrever melhor a realidade e, também, porquê as utilizamos com certa frequencia para nos comunicarmos uns com os outros. E isso não é pouca coisa.
Entender a capacidade evolutiva das palavras modifica completamente o modo como lidamos com aquelas que utilizamos no nosso cotidiano. E nos faz rever como e quais estamos utilizando. Já que:
Você conhece uma única palavra para: “tirar uma coisa do prateleira do supermercado, resolver que não quer levar e então colocá-la em outra seção”?
em inglês existe é: purpitation.
Você tem uma palavra para a: “tendência das idéias idiotas de parecer mais inteligentes quando lhe vêm à mente de repente”?
Em inglês existe é Dopeler effects.
e uma palavra para se referir a: “ação de duas pessoas manobrando para usar o mesmo braço da poltrona dentro do cinema”?
em inglês: elbonics,
tradução: cotovelônica.
e para designar: :aquele garçom de restaurantes chiques cujo único propósito parece ser circular perguntando aos clientes se eles querem pimenta moída na hora?
inglês: peppier,
tradução: pimentier.
e para: “ter de percorrer um labirinto de cordas num aeroporto ou num banco mesmo quando você é a única pessoa da fila?
inglês: furbling,
tradução: filear.
(textos retirados do PINKER, Steve. Do que é feito o pensamento?2008. p 350- 353)