O que seria interdisciplinar nas artes?
em 22/02/2010 por Luiza Proença
Se tornou freqüente a busca por um desenvolvimento de atividades com um intuito interdisciplinar em instituições culturais, como é o caso do Centro Cultural São Paulo com o projeto “experimental” Zona de Risco[1], que aconteceu durante o segundo semestre de 2009. Tais atividades surgem a partir de uma configuração interna da instituição, que gera uma demanda de produção artística. O que muitas vezes acontece é que o “interdisciplinar” em tais atividades se refere ao encontro de disciplinas da própria arte, ou seja, atividades que envolvem teatro, artes visuais, música, dança, cinema, arquitetura, etc. O que isso pode resultar? O que seria interdisciplinar nas artes?
Larry Shiner nos explica que “nem Platão nem Aristóteles – nem a sociedade grega em geral – tratou pintura, escultura, arquitetura, poesia, e música como pertencendo a uma categoria isolada distinta[2].” O autor defende que foi no século XVIII que ocorreu uma grande divisão das artes que conhecemos hoje, gerando a nova categoria de “belas artes” (poesia, pintura, escultura, arquitetura, música), por oposição aos ofícios e artes populares (calçado, bordados, histórias, canções populares, etc.)”[3], e também às ciências e humanidades. Com essa divisão houve também a substituição de todo um sistema de conceitos, práticas e instituições para um outro, e aí surgiram os museus e a sala de concerto – espaços especiais para a apreensão de algo também desenvolvido nesse novo sistema: a estética.
Sabe-se que ao menos desde 1960 formas de resistência àquela divisão tornaram-se freqüentes, e os limites entre as práticas artísticas tornaram-se imprecisos. Porém, como explica Brian Holmes, “nas formas artísticas resultantes, sempre se encontrarão sobras do velho tropismo modernista, por meio do qual a arte, antes de tudo, designa a si mesma (…)” [4]. Para Holmes, “a palavra tropismo transporta o desejo ou necessidade de virar-se rumo a algo além, a um campo ou disciplina exterior, enquanto a noção de auto-reflexividade indica um retorno crítico ao ponto de partida, uma tentativa de transformar a disciplina inicial, de acabar com sua isolação, de abrir-se a novas possibilidades de expressão, análise, cooperação e compromisso”[5]. Holmes chama esse movimento de investigações “extradisciplinares”, como alternativa ao banalizado termo “interdisciplinaridade”, e o relaciona com o desenvolvimento do que era chamado de crítica institucional.
Mas talvez seja importante aqui fazer uma pausa para explicar brevemente algumas diferenças existentes entre interdisciplinaridade, multidisciplinaridade (ou pluridisciplinaridade), e transdisciplinaridade, que é a terminologia mais utilizada no âmbito acadêmico. A tendência mais adotada é a diferenciação por meio dos modos de coordenação e cooperação entre as disciplinas. Assim, a multi ou pluridisciplinaridade se configura como “uma justaposição de conteúdos de disciplinas heterogêneas ou a integração de conteúdos numa mesma disciplina”[6] sem que métodos e teorias sejam alterados. A interdisciplinaridade propõe uma relação de mutualidade ou interação, estabelecendo intersubjetividades e intercâmbio entre conceitos e métodos. Por sua vez, a transdisciplinaridade seria o nível mais alto das relações iniciadas nos níveis anteriores, pois define e resolve problemas independentemente de disciplinas específicas, e assim transformando disciplinas ao remover os seus limites. Se a multi ou pluri disciplinaridade é muito superficial no contato entre as disciplinas, a transdisciplinaridade é demasiadamente utópica. Portanto, entre os dois níveis, a interdisciplinaridade se tornou o termo mais popular e defendido nos discursos acadêmicos e institucionais.
Se seguirmos a definição acima, fica evidente para quem acompanhou as apresentações abertas do projeto Zona de Risco que ele resultou principalmente em uma experiência multidisciplinar entre as artes: bailarinos dançaram textos interpretados por atores que atuaram com a musicalidade criada pelo grupo de músicos, tudo em um cenário que era elaborado pelos artistas visuais. Como o próprio blog do projeto descreve, tratou-se de um processo de “colagem” e “justaposição”. É claro que existiram conflitos e momentos de “fusão”, mas parece que para ser interdisciplinar seria necessário algo mais do que simplesmente o desejo de ser interdisciplinar (a celebração da interdisciplinaridade) ou “híbrido”, outro termo utilizado ao longo do desenvolvimento do Zona de Risco.
Ao analisarmos algumas manifestações interdisciplinares antecedentes entre artistas, como o movimento surrealista ou os conceitualistas do leste europeu, é notável que a ideologia, um programa estético comum, ou uma certa atitude política, era mais importante do que o rompimento entre as bordas entre poetas, artistas, filósofos, escritores e cineastas[7]. Vale lembrar também que no clássico Gesamtkunstwerk de Richard Wagner havia um projeto estético e político bem claro.
Não interessa aqui discutir ou julgar as qualidades dos projetos estéticos, políticos e/ou ideológicos dos exemplos acima, mas apontar que a falta de um projeto coletivo crítico comum (que é diferente da escolha de um “tema” comum, como “fronteira” foi em determinado momento para o Zona de Risco), decorrente do encontro gerido institucionalmente dos grupos participantes do Zona de Risco, acabou por reforçar uma idéia romântica de autonomia da arte, o que não parece ser o objetivo dos grupos quando trabalham isolados.
É evidente que existe uma dificuldade que se relaciona com o que é conhecido na produção contemporânea como “institucionalização da critica” e como “trabalho de arte encomendado” que problematiza a ação do artista dentro da instituição e é capaz de impossibilitar qualquer trabalho crítico. Mas voltando ao que Brian Holmes denomina de “investigações extradisciplinares”, existe uma nova geração de artistas que sobrevivem a isso. Os projetos de tais artistas, geralmente coletivos, “são baseados em uma circulação de disciplinas, freqüentemente envolvendo a reserva crítica real de posições marginais ou contraculturais (…) que não podem ser reduzidas a uma instituição que tudo abarca. (…) É o compromisso político, em quase todos os casos, que lhes dá o desejo de perseguir suas investigações exigentes para além dos limites de uma disciplina artística ou acadêmica.”[8]. Quer seja inter ou extra disciplinar, parece que é a instituição que agora tem que compreender melhor qual seria o seu papel nesse processo. No Brasil as coisas caminham mais devagar e ainda precisamos entender a troca entre as disciplinas não só da própria arte, mas sim da arte com campos diversos, sendo críticos ao pensamento que se desenvolveu no século XVIII.
(imagem do projeto Zona de Risco)
[1] De acordo com o folder de divulgação do projeto, o Zona de Risco se configurou como um “laboratório interdisciplinar de criação e apresentação de manifestações artísticas inéditas”. Quatro grupos heterogêneos, o coletivo BijaRi (artes visuais), a Cia. Maurício de Oliveira e Siameses (dança), o duo Müvi (música) e a Cia. Phila 7 (teatro) foram convidados para desenvolverem “formas de interação, interseccção ou diálogos artísticos” no Espaço Cênico Ademar Guerra do Centro Cultural São Paulo., no segundo semestre de 2009. Aos sábados, em apresentações chamadas “Zonas Abertas”, os participantes deveriam apresentar ao público o processo de desenvolvimento.
[2] SHINER, Larry. The Invention of Art: A Cultural History. Chicago: University of Chicago Press, 2003. p.20
[3] (idem) p.5
[4] HOLMES, Brian. Investigações extradisciplinares: para uma nova crítica das instituições. Concinnitas, Revista do Instituto de Artes da Uerj, Rio de Janeiro, ano 9, n. 12, jul. 2008. p.7.
[5] (idem) p.8
[6] FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade – Um Projeto Em Parceria. São Paulo, SP: Loyola, 2002. (1991). V. 13 Coleção Educar. p. 31.
[7] GROYS, Boris. VIDOKLE, Anton. Art beyond the art market. Notes for an art school. p.4. Disponível em: http://www.manifesta.org/manifesta6/index.htm
[8] HOLMES, 2008, p.12.

