Quando não se tem resposta
em 21/02/2010 por Fabiola Salles
“Coisa estranha é a escrita. Tudo indica que sua aparição não poderia deixar de determinar mudanças profundas nas condições de vida da humanidade; e que essas transformações deveriam ser, acima de tudo, de natureza intelectual. A posse da escrita multiplica fantasmaticamente a capacidade dos homens para preservar os conhecimentos. Com facilidade a conceberíamos como uma memória artificial, cujo desenvolvimento deveria acompanhar-se de maior consciência do passado, portanto de maior capacidade para organizar o presente e o futuro. Depois de eliminarmos todos os critérios propostos para distinguir a barbárie da civilização, gostaríamos de reter pelo menos este: povos com ou sem escrita, uns capazes de acumular as aquisições antigas e progredindo cada vez mais rápido rumo ao objetivo que se fixaram, ao passo que os outros, impotentes para reter o passado além dessa franja que a memória individual é suficiente para fixar, permaneceriam prisioneiros de uma história flutuante `a qual faltariam sempre uma origem e a consciência duradoura de um projeto.
Contudo nada do que sabemos sobre a escrita e seu papel na evolução justifica tal idéia. Umas das fases mais criativas da história da humanidade situa-se no início do Neolítico, responsável pela agricultura, pela domesticação dos animais e por outras artes. Para chegar a isso, foi preciso que, durante milênios, pequenas coletividades humanas observassem, experimentassem e transmitissem o fruto de suas reflexões. Essa imensa empreitada desenrolou-se com um rigor e uma continuidade atestadas por seu sucesso, enquanto a escrita ainda era desconhecida. Se esta apareceu entre o IV e o III milênio antes de nossa era, devemos enxergá-la como um resultado já longínquo (e talvez indireto) da revolução neolítica, mas de modo algum como a sua condição. A que grande inovação estaria ligada? No plano da técnica, praticamente só se pode citar a arquitetura. Mas a dos egípcios ou dos sumerianos não era superior `as obras de certos americanos que ignoravam a escrita no momento da descoberta. Inversamente, desde a invenção da escrita até o nascimento da ciência moderna, o mundo ocidental viveu algo como 5 mil anos durante os quais seus conhecimentos flutuaram, mais do que aumentaram. Com freqüência observou-se que entre o gênero de vida de um cidadão grego ou romano e o de um burguês europeu do século XVIII não havia grande diferença. No Neolítico, a humanidade deu passos de gigante sem o auxílio da escrita; com ela, as civilizações históricas do ocidente estagnaram por muito tempo. Talvez fosse inconcebível a expansão científica dos séculos XIX e XX sem a escrita. Mas essa condição necessária decerto não é suficiente para explicá-la.”
Hipóteses ou de inter para trans
Pode ser que a interdisciplinariedade, palavra que me une a vocês neste território virtual (o blog) e presencial (o CCSP), tenha se tornado um símbolo vazio de significado por fazer parte de um universo conceitual um tanto desgastado da arte contemporânea.
Talvez o que importe venha antes e depois desta palavra, ou seja, tem me parecido que devemos sublinhar aqui o movimento em si de buscarmos um endereçamento comum para esta palavra, de desenharmos posicionamentos e não mais dizer que tudo é válido se este tudo entra num balaio, é chacoalhado, e sai inter-alguma-coisa para ser aplaudida por sua originalidade ou irreverência.
Apesar da citação que inaugura este texto, o intento aqui não é desqualificar a potência das palavras e sim levarmos em conta o caráter sagrado, evocativo e preciso das mesmas. Bem como, nos atentarmos no cotidiano para o que acontece para além destes signos: os nossos movimentos diante delas e o movimento que as propulsiona para o mundo, o que as faz existir.
Um lugar/estado
Percebo que o vazio, que trago como imagem depois de uma investida arranhada no sentido de dar forma ao significado desta palavra e compartilhá-lo, traz sim uma qualidade delineável: existe um caráter espacial na interdisciplinariedade. Espacialidade esta que se configura a partir de estruturas, vetores e relações.
Bem, se sugiro que a coisa em si deva ser compreendida como um espaço, um vazio, um lugar a ser desvendado, e ao mesmo tempo, digo que esta espacialidade se dá por relações, logo, me arrisco a afirmar que hoje tais estruturas ainda sofrem o problema de serem compreendidas e compartilhadas como transparentes de mais, misteriosas de mais ou banais talvez.
Por lugar/estado frutífero
Eu diria que antes deste lugar/estado vir ao mundo existam preparações (dos corpos e saberes) que viabilizam sua existência: curiosidade e busca de clareza do que se deseja. Ou seja, apesar do querer parecer algo simples, espontâneo, talvez estejamos numa época em que somos bombardeados por informações sedutoras, por estratégias de marketing que despertam vontades, e neste contexto, ficam velados os quereres essenciais da natureza humana de cada indivíduo.
Acredito, que o que propulsiona a busca do significado de um símbolo é a clareza de que existe uma importância vital em dar forma ao mesmo e esta importância, acredito, surge de um encontro do indivíduo com os seus desejos, ou melhor, uma conexão do indivíduo com os desejos do coletivo (no sentido atemporal da humanidade) que se manifestam nas, e habitam as, entranhas de cada um.
Antes as preparações, no centro um lugar vazio e depois: frutos… Frutos que afirmam a existência do vazio agora enquanto campo de potência, enquanto ventre. Proponho mudarmos o foco de interesse desta investigação de inter para trans.
.br
Isso porque a priori ao evocar tal caráter espacial da palavra interdisciplinar me aparece diante dos olhos uma paisagem estéril, higienizada, translúcida e impalpável. Por ser um dia de sol, por me espremer entre pessoas dentro do ônibus, por me interessar pelo afeto próximo, sinto vontade de transfigurar esta referência, rechear este imaginário de matéria orgânica: o entrelaçamento de pensamentos, de corpos, de experiências, de expressões.
Quem sabe assim, usando o radical trans, o assunto nos diga mais respeito, não porque queremos falar de trans-as o tempo todo (e também por isso) mas pelo desejo de falar diretamente da vida, dos ciclos e principalmente dos aprendizados “maiores”. O radical trans também diz respeito ao que vai além. O saber do velejador, do saltimbanco, do contador de histórias, do sonhador de uma tribo, do homem que está próximo da natureza e se abre para conhecer em si outras percepções (já que o que organiza o espaço da natureza não são semáforos, escadas rolantes e relógios).
A proposta então é tornar visível os ambientes antes transparentes, abrir o campo perceptivo pela evocação sinestésica da palavra: dar ruga e aspereza `as palavras para que sejam capazes de manifestar os vetores muito velozes e as relações de alta intensidade que são capazes de tocar.
______ ______
Uma pessoa diante da outra, em poucos casos, ficam em silêncio e escutam (o escutar é tátil). Geralmente tagarelamos e me parece que então, fazemos uso das palavras de maneira bastante automática, habitual; sem o tempo necessário dos corpos perceber e comunicar em outras camadas de significação os desejos que vem da mobilização de todas as células para a produção de um único símbolo.
Mas se neste “silêncio proposto”, sem as devidas tagarelices, depois de um longo tempo, é “permitida” a palavra, teremos uma primeira. Então, por ser preciosa, ao desenrolar no espaço pelo fluxo de ar que percorre as cordas vocais, fossas, cavidades e todo o ambiente úmido da boca, lhe daremos a devida importância, seremos capazes de acompanhar este movimento. Com a mesma qualidade que deveríamos dar importância `a água que sai das torneiras de nossas pias, `a comida que nos chega dia-a-dia, `a presença de pessoas especiais que nos acompanham. (hipótese)
WWW e o cinema 3D
Em determinado momento de nossa história, organizar diversas instâncias do cotidiano em gavetas, compartimentos, setores, áreas, pode ser que tenha sido uma evocação da qualidade que venho aqui sublinhar: do humano em estado delicado/bruto. Mas se seguimos habitualmente a organizar nossas relações como em determinado momento, deveríamos rever as menores ações e realmente nos propormos `a vivenciá-las em sua completude. Trans-relacionar pede que os compartimentos, setores, matérias já existentes e assim organizados não sejam exatamente extintos mas que no momento em que forem reafirmados que isto seja feito sempre de forma inaugural pois especificidades em muitos casos fazem sentido e trazem profundidade em determinada direção. Reverenciar o que foi criado com dedicação e ter atenção no que está acontecendo agora me parece válido. (hipótese e a simultaneidade do tridimensional).
Em época de cataclismas, revoltas de ventos e marés… o ser humano dá-se conta de sua fragilidade, enquanto unidade e enquanto espécie. Numa floresta isso fica bastante evidente pois alí compartilhamos o espaço com outros seres, outras formas de vida. Então inventamos a cidade. Por livre e espontânea manifestação? As cidades são relativamente recentes na história da humanidade. Os agrupamentos de seres humanos não. Nos reunimos, acredito, para nos proteger e para criar (entre outros).
A organização das famílias como se dão em sua maioria hoje é um desenho fruto de uma sociedade burguesa que de certa maneira imita um modelo das famílias reais e nobres (com a licença de uma explicação rápida): mãe, pai e filhos, cada núcleo deste em uma casa, um apartamento: linhagens sanguíneas, sobrenomes. Em contrapartida, em certas tribos indígenas e comunidades os filhos se misturam e são cuidados por todos.
As estruturas objetivas, concretas, a arquitetura e seus cálculos precisos, se desmancham com a chuva. Muitas famílias se fazem e desfazem sem sabermos ao certo qual a melhor maneira de se viver. Busca-se organizar, criar bases, pontos de apoio: religiões, dogmas, leis, modelos e marcas. Mesmo porque, depois de uma interpere nos mobilizamos para dar conta das advertências.
Ou seja, revela-se uma contradição que divide o ser humano pelo meio: de um lado somos animais, temos nossos instintos e percepções em ação constantemente; do outro, temos a história, a cultura, a construção, a coletividade crescente e a produção de artifícios.
Afirmamos a estrutura palpável: as ruas e avenidas que organizam, as hierarquias e grades fortes que sustentam, pois parece difícil agüentar a falta de casa, a falta de saber do dia seguinte… (isso num sentido de maioria já que ainda existem nômades que afirmam dia a dia a transitoriedade). Um guia que leva turistas num parque diz que inteligentes são os macacos que carregam suas famílias nas costas e todos os lugares são suas casas. Ali, mais pra frente é, e, lugares passados também podem vir a ser novamente.
Estive no Piauí e visitei as cavernas do Parque Nacional da Serra da Capivara onde estão as pinturas rupestres mais antigas do Brasil. É realmente uma experiência incrível. A paisagem é composta por grandes pedras pois explica-se que antigamente ali era mar. Essas formações desenham tocas e cavernas que são ambientes muito acolhedores, principalmente diante da flora e da fauna tão abundantes da região. Apesar dos perigos e adversidades da mata, onças, cobras, chuvas fortes, se você anda em grupo e entra nestas tocas se sente incrivelmente abrigado. É nestas tocas que estão as pinturas rupestres mais antigas das Américas, tão especiais, produzidas com o uso do óxido de ferro (facilmente encontrado na região) diretamente sobre as pedras.
Nos últimos tempos também tive a oportunidade assistir, no acervo do CCSP, vídeos produzidos por Claude Levi Strauss no início do século XX a respeito de comunidades indígenas brasileiras as quais visitou. É bastante interessante pois, diferente do que eu imaginara, estes vídeos foram editados e os recortes propostos pelo etnógrafo conferem ao material um ponto de vista delicado e crítico.
É muito bonito ver como são ricas as relações de tais povos com a sobrevivência, com a vida, com a espiritualidade, com os afazeres, com as relações entre seres em seus cotidianos: tudo isso num mesmo patamar de importância: arte. Fogueira, nascimento, morte, música, sonho, dança, cuidado, busca de alimento, sexo, espírito de comunidade…
“(…) Ulikandé parece querer dizer “aquele que une” ou “aquele que liga junto”. Tal etimologia sugere que o espírito indígena é consciente desse fenômeno que já salientei, ou seja, que o chefe aparece como a causa do desejo do grupo de se constituir enquanto grupo, e não como o efeito da necessidade, sentida por um grupo já constituído, de um autoridade central.”
Me mobilizam e encantam estes exemplos e expressões de vidas. Me faz dobrar sobre o desejo de uma outra maneira, bem diferente de desejar uma Coca-Cola. Lança luz nas vontades bastante internas, ou talvez que venham dos astros (a poesia do corpo existir), de sabermos nossos atributos enquanto bicho-homem.
Talvez seja o momento de baixarmos a bola para deixar que para além das organizações humanas, que muito precisam florescer, criar, outras comunidades e pensamentos não escritos possam se manifestar: brotar ou re-brotar.
E este foi apenas o meu exercício, meus exemplos e experiências mais recentes, que podem completar o vazio. Somos muitos.
Da capo
Para finalizar, sugiro a releitura do primeiro trecho de Levi Strauss aqui citado e sigo minha reflexão em looping: se a palavra surgiu com o poder de guardar a memória da humanidade que esta possa ser evocada de sua raiz que diz respeito também ao momento de sua não codificação ao momento em que se deu todo o movimento anterior, pré-simbólico, que possibilitou o seu aparecimento. O que são as manifestações artísticas humanas? Que corpos são estes os nossos?
Seguimos em movimento.
Agradecimento: Ao Coletivo Urubus e aos membros do GRiD

