Reflexões acerca do hibridismo
em 20/02/2010 por Sofia BoitoMuito se fala em hibridismo na arte contemporânea. Nas artes “espetaculares”, por assim dizer, esse termo é tão recorrente quanto nebuloso. A arte dita “híbrida” me parece ser simplesmente aquela arte que tanto o crítico quanto o público ou o jornalista, não sabe definir sua natureza. (Seria aquele um espetáculo de dança? Ou seria de teatro? Ou seria uma performance? Ou uma vídeo-performance?)Mas, afinal o que seria uma arte híbrida?
Não desejo aqui (e mesmo que desejasse não conseguiria) chegar à uma resposta absoluta. Tampouco penso que haja uma. Mas, mesmo dessa simples afirmação que venho de fazer – híbrida é uma arte da qual não se reconhece a natureza dentre as linguagens artísticas já convencionadas – podemos avistar alguma pista do que pode ser esse tal hibridismo na arte.
Segundo Laurence Louppe em certo texto intitulado (na tradução em português) “Corpos híbridos”: “Esse híbrido não se situa em nenhum lugar, não é nada. Frequentemente ele é totalmente isolado e atípico, o resultado de uma combinação única e acidental. A hibridação funciona muito mais no lado da perda. A hibridação age mesmo na nucleação dos genes, ao subvertê-los e deslocá-los. Ela pode criar uma relação não entre raças, mas entre ‘espécies’ incompatíveis, dando a origem a criaturas aberrantes, destacadas das comunidades vivas.”
Ora, de fato, o híbrido, no campo da biologia, seria um ser resultante do cruzamento entre diferentes espécies (como zebra e asno, tigre e leão) o que cria um terceiro ser, não pertencente nem à primeira e nem à segunda espécie.
Se importássemos o conceito científico para o campo da arte de forma “literal” (procedimento usado por Louppe), podemos compreender que uma obra híbrida seria, então, uma obra resultante do cruzamento entre linguagens artísticas diferentes, mas que não seja pertencente nem a uma linguagem, nem a outra, sendo, portanto, uma terceira coisa.
Desse pensamento o que me interessa, e digo isso principalmente como artista, é essa idéia de “cruzamento” entre diversas linguagens. Mais do que simplesmente colar diversas formas artísticas uma ao lado da outra, o procedimento seria o de fato criar uma intersecção real entre as linguagens. Mas, afinal o que poderia configurar esse tal cruzamento genético no que diz respeito à arte?
Uma das características fundamentais descritas por Louppe, ao meu ver, é o caráter “acidental” desse cruzamento. Isto é, me parece que em uma criação artística em que estão envolvidas diversas linguagens, para haver de fato a hibridização é necessário não possuir como objetivo (ou, talvez, não possuir apenas como objetivo) o hibridismo, mas sim de fato concretizá-lo a partir de procedimentos processuais que levem o resultado à ele.
O que tento explicar é que não há uma fórmula para o hibridismo. Em realidade seria o real cruzamento entre linguagens (se ele de fato existir) durante um processo artístico que gerará um filho híbrido; sem que se haja um grande controle sobre a aparência desse filho. Digo isso porque, por ser recorrente o termo, me parece que muitos artistas buscam resultados híbridos em suas obras sem antes, durante o processo de criação, fomentar uma real intersecção/cruzamento das linguagens artísticas.
A busca pelo hibridismo como resultado formal e não com um procedimento durante o processo, muitas vezes acaba por criar espetáculos de colagem, onde ao invés das linguagens se esbarrarem, friccionarem e se contaminarem, elas ficam cada uma em sua área de conforto, deixando claro onde está a dança, onde está o teatro e onde está a música. Sem que uma modifique a outra.
Ora, a obra híbrida, me parece, não seria aquela criada à imagem de um centauro (figura mitológica grega metade eqüina e metade humana), mas sim aquela que em seu processo está disposta a se transformar em mula, zebralo, zebrasno ou leopon. Até por isso, acredito eu, Louppe diga que a hibridização está também ligada a um processo de perda.
