Frank Castorf
em 19/02/2010 por Sofia BoitoTido, aqui no Brasil, como um grande encenador do teatro contemporâneo, Frank Castorf, já foi trazido pela rede SESC com duas peças: Estação Terminal América (adaptação da peça Um bonde chamado desejo de Tennessee Williams) e Na selva das cidades (de Bertold Brecht). A vinda do diretor e sua trupe deu tão certo que no ano de 2006, em um convênio entre o SESC-SP e o Goethe Institut o encenador criou e montou no Brasil (com atores brasileiros) sua versão para a peça de Nelson Rodrigues Anjo Negro (que montou com trechos do texto A missão:lembrança de uma revolução de Heiner Muller) .
Na minha visita à Berlim, neste janeiro de 2010, pude visitar a “casa” de Castorf, isto é, o Volksbuhne (“o palco do povo”), teatro estatal alemão que pertenceu à socialista República Democrática Alemã nos anos que antecederam à queda do muro de Berlim e ao fim da divisão do país. Essa instituição teatral, hoje, é uma das maiores na Europa, possuindo um enorme número de montagens e público. O Volksbuhne está “sob comando” de Frank Castorf desde 1993 e talvez também por isso, em Berlim, ao contrário do que ocorreu no Brasil na vinda do diretor e suas montagens, Castorf não é visto como um representante de um teatro contemporâneo, mas sim como o diretor de um instituição estatal de “repertório” convencional e já empoeirada.
Acho interessante mencionar essa divergência de olhares – Castorf como diretor de um teatro enferrujado ou Castorf como representante de um teatro contemporâneo – que reflete também o conhecimento ou a falta de conhecimento sobre o contexto da criação e produção do diretor.
No entanto, mesmo sendo ele visto como o diretor de um antigo e convencional Volksbuhne, não pude deixar de notar que a sala do teatro estava lotada de jovens que iriam assistir à sua versão de Medeia. E nessa noite pude observar, mais uma vez, o que sempre me despertou interesse no trabalho de Castorf: a vitalidade de suas encenações. Frank Castorf pode escolher montar textos clássicos para o “repertório” do Volksbuhne, não importa, o que se vê em cena diz respeito a hoje. Sua encenação grita, explode, ironiza, destrói, provoca, violenta.
O que vi, por exemplo, em Anjo Negro + A missão: lembrança de uma revolução é uma discussão calorosa sobre o racismo, não só pelo texto de Muller ou Rodrigues (que lembremos, muitas vezes beira mais o dramático ou até mesmo o trágico do que propriamente o político), mas pela estrutura formal da encenação que vem dar um outro sentido aos textos.
A ironia com que o diretor trata os temas é uma característica que sempre nos afasta epicamente de suas personagens e em Anjo Negro esse distanciamento é estampado na cara: os atores negros fazem os papéis dos brancos e os brancos os papéis dos personagens negros. Os atores são porta-vozes de personagens que falam diretamente à platéia, sem a máscara da ficção, como se aquilo que ocorresse no palco de fato nos dissesse respeito, nos impedido de tomar o lugar do voyeur passivo.
A revolta de seus atores/personagens (nunca vemos apenas um, mas sempre a fricção dos dois) em suas encenações sempre leva à destruição física do espaço. O que muitas vezes acaba por revelar outros espaços, ou mesmo a estrutura do teatro – Em Anjo Negro a destruição das paredes de maderite revelam os câmeras-men que filmam os atores para projetá-los em uma tela na boca de cena. Destruir é revelar, e é na destruição que a peça se faz possível. A violência está sempre latente em sua arte e quando explode é tão potente que não conseguimos nos sentir excluídos dela. É por isso que há aqueles que, como eu, sentem um desejo imenso de pular no palco, mas, por outro lado, há outros que se sentem repelidos, de fato, do teatro. Tanto que em A selva das cidades a platéia do SESC esvaziou quase cinqüenta por cento na metade do espetáculo.
Existe uma dramaturgia da ação presente por cima do texto e ela está na destruição/transformação do cenário, na explosão da luz, no esvaziamento revoltado da platéia.
Segundo Jitka Pelechová, em um artigo sobre o encenador na revista francesa Théâtre/Public, essas características das encenações de Castorf são quase uma “marca de fábrica que impregna de maneira indiscutível a estética de seus espetáculos” e que está “ligada a um passado alemão recente, desde as duas guerras mundiais até a reunificação, em torno de sentimentos contraditórios de culpa e nacionalismo”[1].
Castorf talvez seja o diretor mais político que assisti nos últimos tempos e não porque ele procure racionalmente falar de política, mas talvez porque em suas montagens a autêntica e vital revolta e indignação leve os atores a agirem de fato no presente e a modificarem seu ambiente.
[1] Jitka Pelechová, “Deux repertoires en parallèle – Frank castorf, Thomas Ostermeir” In: Théâtre/Public 194, Paris. 2009.



