Entrevista com a curadora Ana Maria Rebouças a respeito do projeto Zona de Risco realizado no CCSP em 2009
em 10/02/2010 por Fabiola SallesA entrevista que segue foi realizada a partir do dia 1 de dezembro de 2009 com a curadora interdisciplinar do CCSP, Ana Maria Rebouças, a respeito do projeto Zona de Risco.
A entrevista foi realizada em dois momentos: um primeiro em vídeo, em que Ana Maria respondeu as perguntas em ato sem preparar uma reflexão para tais questões; e um segundo momento, em que recebeu as mesmas perguntas por escrito e teve o tempo desejado para elaborar as respostas.
Ao propor acompanharmos as passagens entre estes dois tipos de práticas reflexivas desejo investigar o amadurecimento de nossos pensamentos e percepções acerca de uma experiência importante em nossas trajetórias. E que estas passagens possam ser em si uma vivência para o leitor.
1. Poderia nos contar de maneira sucinta como foi o processo de criação do projeto Zona de Risco?
http://www.youtube.com/watch?v=rsLjw_qZzGg
O projeto foi pensado como forma de conciliar pesquisa e programação, ao mesmo tempo em que pretende estimular a convivência e a experimentação interdisciplinar. O projeto ZR se guia pelo diálogo não hierarquizado entre linguagens artísticas e não tem o compromisso de apresentar obras acabadas. Tentamos observar esses critérios ao longo do processo criativo, que foi sendo pensado e repensado pelos artistas participantes. Nesse sentido, o curador propôs uma estrutura flexível: cada um dos quatro grupos apresentaria seus respectivos trabalhos e, uma vez por semana, promoveriam sessões conjuntas em que deveriam relacionar-se em por meio de exercícios e improvisações. Disso poderiam surgir várias formas de interação, como números autônomos de cabaré ou um trabalho conjunto, acionando cenários e dispositivos alternadamente ou simultaneamente. Os grupos optaram pelo segundo caminho e desenvolveram uma trajetória que integrava todos os cenários e contava com a participação de todos os artistas. As cadeiras foram retiradas do espaço, fazendo com que o público se deslocasse, estimulando sua aproximação e sua interferência corporal na cena. De início, o processo criativo caracterizou-se pela discussão de formas de ocupação do espaço, testando sons, luzes, movimentos e formas de relacionamento entre os artistas e com o público. Depois da escolha do tema fronteiras, cada grupo trouxe contribuições que foram ou não sendo incorporadas ao trabalho.
2. O seu posicionamento neste projeto é de curadora. Como você entende curadoria? Como foi este processo de escolha dos grupos e artistas que participariam do Zona de Risco?
http://www.youtube.com/watch?v=W5IoSP2xe7Y
Projetos curatoriais pressupõem critérios de escolha, uma leitura que relacione artistas e obras segundo certa concepção, recorte ou tema. Podem ser inspirados em um dado acervo, no patrimônio cultural ou nas características da produção artística contemporânea. Projetos curatoriais também devem propor questões pertinentes à época e ao contexto em que se inserem. Como desdobramento da prática curatorial, o curador deve estimular a compreensão estética e poética da produção artística; propor publicações que ajudem a divulgar a arte e seus acervos; criar um espaço público de discussão, principalmente sobre propostas experimentais, tornando a cultura e a memória mais acessíveis e promovendo sua apropriação. O curador cria condições para a produção e a preservação da memória não somente zelando ou mantendo o patrimônio, mas atuando como propositor de eventos, divulgador e pesquisador atuante. Em termos gerais, o curador deve organizar as condições para que o projeto seja realizado, supervisionar sua execução, dar suporte intelectual e atuar como mediador entre a instituição e os artistas envolvidos.
No processo de escolha dos grupos, levamos em consideração suas trajetórias de pesquisa, seus processos criativos e os recursos que poderiam trazer para a experimentação interdisciplinar. Assim, os grupos trouxeram suas experiências com vídeo, música eletrônica, técnicas de intervenção e interfaces entre arte, corpo e tecnologia. Documentamos o histórico e a atuação de cada grupo com entrevistas, fotografias e vídeos. O processo de criação interdisciplinar também foi documentado. O material gerado irá alimentar o acervo com informações e documentos sobre a produção artística brasileira contemporânea e poderá servir para uma publicação.
3. Pode nos contar um pouco da sua trajetória nas artes e no CCSP?
http://www.youtube.com/watch?v=HLm1lZlNZ6Q
Iniciei minha atividade de pesquisa em artes cênicas como estagiária da Divisão de Pesquisas/Idart/CCSP em 1991, ainda cursando a faculdade de História na Universidade de São Paulo. Essa experiência com pesquisa influencia a forma como me integrei na Divisão de Curadoria e Programação do CCSP, em 2008, procurando conciliar programação e pesquisa, levando em consideração o acervo da instituição. Minha trajetória nas artes sempre foi alimentada pelo interesse na de área de Humanas, principalmente em história e filosofia. Em minha trajetória de vida, freqüentei alguns cursos: teatro com Myrian Muniz, Cristina Mutarelli, TUCA; direção teatral I na ECA (como atriz convidada); circo no Circo Escola Picadeiro, roteiro com Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald, dramaturgia com a equipe do Royal Court. Em 2001, concluí o mestrado com a dissertação Poética Cênica na Dramaturgia Brasileira Contemporânea (ECA/USP), que procurava diagnosticar experiências representativas da produção dramatúrgica do final dos anos 1990 em São Paulo, com base num conceito alargado de dramaturgia que se constrói por meio de redes significantes (texto, imagem, som, ações físicas). Além disso, minha trajetória inclui algumas palestras, artigos para revistas, pesquisas, realização de seminários e exposições.
4. Você acredita que o hibridismo é uma característica da arte contemporânea ou sempre permeou as artes? Por que trazer a tona esta característica, neste momento, como fundamento de uma experimentação artística numa instituição pública?
http://www.youtube.com/watch?v=sYrMYRw-Csw
Os rituais dionisíacos, por exemplo, que deram origem à arte dramática antes do século V a.C., não estabeleciam fronteiras entre dança, música e teatro, assim como os rituais primitivos. Essas manifestações do espírito faziam parte de uma espécie de caldo cultural primordial anterior à formação das belas artes. Os mitos guiavam a celebração coletiva que apagava os limites entre a arte e a vida, entre o eu e o nós, até que o primeiro ator se afastou do coro, criando o diálogo que se tornou cada vez mais portador do discurso de um personagem dramaticamente construído. As linguagens artísticas foram se diferenciando e se especializando cada vez mais, mas o hibridismo nunca deixou de permear as artes nas formas de fusão, contaminação ou justaposição, resultando em criações originais. A hibridização pode se originar de relações entre diferentes culturas, entre diferentes gêneros ou entre diferentes linguagens artísticas (como a dança-teatro ou a poesia visual), geralmente absorvendo recursos da evolução tecnológica (como a videodança ou o clip musical). Mas essas formas de hibridização muitas vezes se interpenetram: o jazz, por exemplo, nasce da relação entre culturas distintas, mas também é fruto da interação de diferentes gêneros musicais. A atração que as artes exercem umas sobre as outras sempre alimentou artistas e correntes: dos românticos simbolistas aos vanguardistas performáticos. No Brasil, o hibridismo é inerente a uma visão de mundo antropofágica e sincrética, origem de nossa “verdadeira” cultura. Há épocas em que manifestações híbridas tomam maior impulso e outras em que as linguagens se segmentam e se especializam, até sofrerem novas contaminações. Das várias formas de hibridização, parece-me que a tendência, a partir dos anos 1970, vai em direção a um hibridismo multicultural e não-hierarquizado entre as linguagens artísticas. Diante disso, projetos que estimulem o hibridismo podem contribuir para mudanças de paradigma até mesmo na forma como uma cultura pode responder a questões globais. Daí a importância de se arriscar o experimentalismo entre as artes não somente em instituições públicas, mas principalmente, já que estão (ou deveriam estar) menos comprometidas com o mercado e com o circuito cultural instituído.
5. Você disse em determinado momento que os grupos envolvidos no ZR tinham em comum processos criativos que envolviam pesquisa de linguagem. O que você entende por linguagem? O que seria então: pesquisa de linguagem?
http://www.youtube.com/watch?v=D2vcDVzDoXQ
Linguagem, de forma breve e bem abrangente, é um sistema de signos organizados segundo certas regras que permitem a comunicação. Ela pressupõe uma “gramática” que organiza o código para que a transmissão da mensagem se realize. Para o lingüista Roman Jackobson, “podemos falar até da gramática dos sinais de tráfego. Existe um código de sinais, em que uma luz amarela, quando combinada com outra verde, adverte que a passagem livre está prestes a ser fechada”. Uma linguagem artística estrutura-se a partir de signos combinados e selecionados numa dada sintaxe, de acordo com um funcionamento próprio: seus modos de produção, recursos e procedimentos. A especificidade de cada linguagem é historicamente constituída. A literatura, por exemplo, usa palavras de uma forma especial segundo o gênero seja romance, conto ou poesia. A linguagem cinematográfica, de outra forma, usa imagens articuladas em seqüências de fotogramas combinados no processo de montagem. A linguagem musical utiliza notas musicais como base para suas composições. Essa especificidade de cada linguagem, no entanto, nunca é tão pura como muitas vezes se supõe. O cinema também usa recursos da linguagem teatral e da literatura assim como o teatro é influenciado pela linguagem cinematográfica. Essas contaminações ficam mais evidentes quando a atividade criativa é estimulada por novas perspectivas de desenvolvimento, como aconteceu com a invenção da fotografia, que estimulou um espírito de questionamento e pesquisa tanto nas artes plásticas como no teatro, revolucionando suas linguagens. Acredito que a pesquisa de linguagem é vital para o processo de criação artística.
6. Você não acha que talvez tenha sido um pouco “violenta” a “estratégia” de encontro entre os grupos já que não se conheciam anteriormente e que deveriam criar juntos, em tempo determinado, um trabalho de entrelaçamento de poéticas e processos?
http://www.youtube.com/watch?v=JERFkp4Qlv8
Falo da passagem da idéia de juntar os grupos, para a prática, a efetivação do encontro imaginado, a qualidade deste primeiro contato e os desdobramentos que este modo de fazer suscitou nos artistas.
A estratégia da primeira edição do ZR foi a de estimular improvisações e diálogos artísticos com base em procedimentos e estruturas que os grupos haviam desenvolvido anteriormente. Eles não tinham o compromisso de apresentar um trabalho acabado, mas sim sessões abertas e em progresso, aos sábados. Numa improvisação, conta-se muito com a flexibilidade do artista e com os imprevistos e acasos do momento ao vivo. Teoricamente, os artistas teriam 15 dias para estabelecer as bases de improvisação para a primeira sessão, mas esse tempo (que já era curto) foi tomado para montar cenários, conseguir equipamentos, afinar a luz de cada montagem e criar um mapa comum que funcionasse para todos e ocupasse a extensão do espaço. Isso gerou – justificadamente – certa ansiedade, mas felizmente todos os participantes são ótimos artistas, com vocabulário e repertório bem ricos e intercambiáveis, e conseguiram êxito nas apresentações. O que tornou a realização do ZR problemática, na minha opinião, foram as questões técnicas e muito concretas que deparamos para adequar o espaço Ademar Guerra à proposta. Conquistar aquele amplo espaço de concreto, estudar a reverberação do som, testar os efeitos de luz, traçar um itinerário acionando os vários dispositivos cênicos não foi fácil, mas foi importante para criarmos uma atmosfera que proporcionasse uma experiência estética.
7. O Zona de Risco em determinado momento decidiu tomar a fronteira como temática, estou certa? Um processo que percebo como metalingüístico já que se trata de uma proposta interdisciplinar sob o título Zona de Risco. Assim, que tipo de abordagem, exercício, estratégia, estímulo lançaram mão para contemplar a complexidade sensível e política deste tema?
http://www.youtube.com/watch?v=k-p9MMrRZys
Inicialmente, o projeto ZR pretendia estimular interações entre linguagens artísticas (música, dança, teatro e artes visuais) de forma harmoniosa e integrada. No entanto, esse jogo se revelou conflituoso: o processo entrava em crise e desintegração justamente quando uma linguagem esbarrava na fronteira de outra, colocando em xeque seus procedimentos e modos de criação. Todo o processo era então questionado, pressionando as fronteiras de cada linguagem para além de sua linha demarcatória, criando uma zona fronteiriça porosa onde o hibridismo poderia tomar forma. O processo já nasceu metalingüístico, pois trazia implicitamente a questão da fronteira entre as artes. Talvez por isso o tema fronteiras tenha se explicitado: o invisível tornou-se visível e passível de conscientização. As crises foram sendo solucionadas com muita discussão e passamos a habitar nessa zona fronteiriça cheia de conflitos, mas também de possibilidades de troca e enriquecimento mútuo. Passamos a considerar corpo, texto, imagem e som sem estabelecer fronteiras rígidas e tentando respeitar certos princípios (não necessidade de trabalhos acabados, não hierarquia entre as linguagens, co-habitar as artes, conviver com as diferenças). Cada um trouxe sua contribuição ao tema: sons, textos, imagens e palavras para serem executados ao vivo ou reproduzidos. Esse material foi sendo acrescentado ao roteiro que já havia sido criado, com pequenas modificações e afinações. As sessões ZR se tornaram mais orgânicas, mas nem por isso deixaram de dar espaço ao improviso e ao imprevisível até a última apresentação do dia 24 de outubro.
8. Existe a proposta de continuidade deste projeto ou de outro semelhante para 2010 no Centro Cultural São Paulo? Quais seriam os pontos principais de mudança, a partir da experiência vivida, para darem continuidade?
http://www.youtube.com/watch?v=Wg3TNFV8n38
Uma das propostas da direção do Centro Cultural São Paulo é a de estimular processos interdisciplinares. Nesse sentido, o Zona de Risco inaugura uma prática mais ampla na instituição e deverá ser seguido de outros projetos interdisciplinares, semelhantes ou não. Independentemente disso, a primeira edição do projeto ZR foi uma experiência-piloto importante e enriquecedora tanto por propor um diálogo mais estreito entre artistas e instituição como por promover uma maior aproximação entre diferentes linguagens, estimulando a pesquisa, a experimentação e incentivando processos de criação que possam contribuir para renovação da produção artística brasileira.
Na próxima edição do Zona de Risco, os projetos deverão ser discutidos com bastante antecedência em reuniões entre os artistas, alguns curadores do CCSP e eventuais convidados. Devemos definir uma proposta com planejamento de atividades de interação como workshops e exercícios experimentais. Os projetos deverão ser enviados com bastante antecedência para a produção do CCSP, para que possamos estudar as necessidades técnicas. Assim, o espaço deverá estar pronto desde o primeiro dia do período de convivência, com os equipamentos instalados para que logo comecem a experimentar. O período de convivência será estendido, com mais tempo para o entrosamento antes das apresentações abertas ao público. Espero com isso que o projeto se estruture melhor e ofereça boas condições para os artistas.
9. Partindo do seu conhecimento enquanto pesquisadora do CCSP, você saberia nos dizer se aconteceram anteriormente propostas de criação interdisciplinares, experimentais, de natureza similar ao Zona de Risco, no espaço Ademar Guerra ou em outras mediações desta instituição?

que bom que você postou isso! Estava sentindo falta!
e agora consegui colocar os links. é de vagar é devagar é de vagar é devagar devagarinho…
muita coisa rolando ao mesmo tempo na vida… se tiver tempo olha os videos tb.
Ela me enviou a resposta no meio de janeiro e depois fiquei editando os vídeos e tentando colocar no ar…
[...] culturais, como é o caso do Centro Cultural São Paulo com o projeto “experimental” Zona de Risco[1], que aconteceu durante o segundo semestre de 2009. Tais atividades surgem a partir de uma [...]