O Gesamtkunstwerk de Harald Szeemann
em 08/02/2010 por Luiza ProençaRichard Wagner explicitamente formulou a idéia de Gesamtkunstwerk no ensaio A obra de arte do futuro, em meados do século 19, embora ela já tivesse seus fundamentos teóricos nos princípios do romantismo e no idealismo alemão. Gabriele Bryant [1] relata que naquilo que foi chamado de “revolução estética”, termo elaborado por Friedrich Schlegel, “a arte não mais imita sua história e contexto social, mas preferivelmente, a sociedade deveria seguir os ideais e regras enunciados pela arte”. A autora procura entender a atualidade do uso do ambíguo termo Gesamtkunstwerk, visto por alguns como um “precursor da redenção” e por outros como um “perigoso travesti”. Ela explica que no surgimento do termo as artes ainda não haviam sido separadas em domínios autônomos; já as práticas dos dois séculos seguintes aparecem como a tentativa retrospectiva de reunir as artes novamente e, mais que isso, procuram a transcendência da obra de arte como tal, levando à transformação estética da sociedade, como resposta para a crise social, ao desespero cultural e a experiência da alienação pela modernidade. Bryant utiliza o edifício Hoechst, em Frankfurt, projetado pelo arquiteto Peter Behrens em 1924 como exemplo recente.
Antes das reflexões de Bryant, em 1983, o curador suiço Harald Szeemann já havia tomado uma iniciativa de investigar o tema por meio da realização da mostra Der Hang zum Gesamtkunstwerk: Europäische Utopian seit 1800 (A tendência da Arte total: Utopias européias desde 1800), na Kunsthaus Zürich. O título, segundo Bryant, só poderia ser “Der Hang” (a tendência, inclinação, ou desejo em direção ao Gesamtkunstwerk) pois Gesamtkunstwerk (ou trabalho de arte total) realmente não existe, ele só pode existir na nossa imaginação.
Em uma entrevista concedida ao curador Hans Ulrich Obrist [2], Szeemann relata que a exposição partia de artistas do romantismo alemão (como Phillipe Otto Runge) e arquitetos da revolução francesa. Havia um espaço para gestos artísticos primários do século XX, no qual se encontrava obras do Kandinsky de 1911, o “Grande vidro” de Duchamp, um Mondrian, e Malevitch. A exposição terminava com o artista Joseph Beuys como representante da última revolução nas artes visuais. Outros participantes da mostra eram: trabalhos e documentos de Richard Wagner e Ludwig II; Rudolf Steiner; Facteur Cheval e Tatlin; Hugo Ball e Johannes Baader; o “Triadisches ballett” de 1927 de Shlemmer e a “Cathedral of erotic misery” de Schwitters; o manifesto da Bauhaus; Antonio Gaudí e o movimento “Glass Chain”; Antonin Artaud; Adolf Wölfli, e Gabriele D’annuzio; e no cinema Abel Gance e Hans-Juger Syberberg. A Merzbau de Schwitters foi reconstruída, pela primeira vez, por Peter Bissegger para a ocasião da exposição (foto acima).
A mostra, como é possível notar acima, não se limitava a somente pinturas e esculturas, mas também maquetes, objetos do cotidiano, documentos, reconstruções de obras, miniaturas, etc. Assim como nas exposições anteriores The Bachelor Machines (1975) e Monte Verita (1978), em Der Hang zum Gesamtkunstwerk Szeemann buscou desenvolver uma história das utopias, e também acabou por realizar uma história dos mitos e valores europeus[3].
Notas e bibliografia
[1] Brylant, Gabriele. “Timely untimeliness: Architectural modernism and the idea of Gesamtkunstwerk”. In: Mari Hvattum and Christian Hermansen (eds), Tracing modernity: manifestations of the modern in architecture and the city. London: Routledge 2004. pg. 156 a 168
[2] Hans Ulrich Obrist (ed.). A Brief History of Curating. Zürich: JRP-Ringier, 2009. pg.93.
[3] Poinsot, Jean-Marc. Large exhibitions: a sketch of typology. In: Reesa Greenberg , Bruce W. Ferguson, and Sandy Nairne (ed). Thinking about exhibitions. Routledge, 1996.
[] Derleux, Florence (ed.). Harald Szeemann Individual Methodology. Zürich: JRP-Ringier, 2008.


obrigada, pelo artigo sobre o gesamtkunstwerk de harald szeemann:)
estou a fazer minha tese de doutoramento em arte acntemporânea sobre o meu trabalho que se cruza com estas problemaática.
Oh yes. Muito bom saber dessa exposição do Szeemann, que desconhecia e que muito me interessa. Gracias!