“O livro das citações”
em 03/02/2010 por Roberto Winter
“O livro das citações“, de Eduardo Gianetti, não é, como o nome pode parecer implicar, uma reunião enciclopédica de citações para serem decoradas como máximas ou usadas em momentos oportunos. Uma rápida folheada no livro pode contradizer isso: o livro é composto apenas por citações, uma após a outra, sem nenhuma linha sequer escrita pelo autor/organizador. Mesmo a organização das citações pode deixar dúvidas, mas as seções como “Da inutilidade dos prefácios”, “A sedução das palavras”, “Contra o excesso de leitura”, “Com o saber cresce a dúvida” e assim por diante não são compêndios organizados para serem explicativos desses temas, não são nem guarda-chuvas nem tentativas taxonômicas de conhecimento apropriado.
O grande mérito do livro é justamente o que está entre as citações. É uma espécie de fio narrativo invisível que articula não só as citações, mas também as seções e os capítulos do livro entre si. E por isso mesmo que não é recomendável a leitura de uma ou outra citação separada das outras, ou de uma só seção separada do resto do livro; algo que seria, ainda que não pareça, quase tão sem propósito quanto ler apenas um capítulo de um romance.
Talvez daí ele se chamar “Livro das citações” e não “Enciclopédia” ou “Dicionário”: é realmente um livro, tudo bem que nem tanto um romance, mas quase um ensaio. Mas de modo nenhum é um ensaio raso, simplificação ou resumo de outros; pelo contrário, é denso e complexo; um discurso não linear, intricado, mas não por isso insondável.
Em última análise lê-se um livro sobre contexto e não sobre texto. Isto é, não é sobre cada uma das citações em si, mas sobre como aquelas citações, cuidadosamente selecionadas, retiradas de seu contexto original e colocadas uma após a outra são capazes de criar algo que talvez nem esteja ou estivesse em nenhuma delas. Ou, como também se mostra nos dois primeiros capítulos, a impossibilidade de fazê-lo.

O livro e o comentário que você fez dele, me lemboru a obra de Nuno Ramos “Ai de mim!”. Sabe?
Não sei. Procurei aqui e só achei umas imagens por meio das quais não dá pra entender.
Explica aí: qual é o lance?
Então, é uma obra em que duas esculturas,uma de vidro outra de aço, elas ficavam uma de frente para outra, com caixas de som “dialogando”. O diálogo foi ontado por ele com trechos,”citações”de peças de teatro de diversos autores e de músicas do Lupcinio rodrigues. Eu lembrei porque os trechos, recolocadoe em contexto criam esse novo contexto. Enfim, não sei porque não li o livro das citações, mas me lembrou a obra dele. Tenho o programa com o texto todo do Nuno, caso te interesse.
Vale a pena ler um comentário sobre as posições político-econômicas do autor do livro no blog do Luis Nassif.